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Para cima

Em 1914 a defesa naval dos Açores estava dividida em três capitanias marítimas, respectivamente Angra (Capitania Central) na Ilha Terceira, Horta (Capitania do Este) na Ilha do Faial e Ponta Delgada (Capitania do Oeste) na Ilha de São Miguel.


O Exército encontrava-se organizado em torno do Comando Militar dos Açores, desde 1901, com duas zonas militares com sede no Forte de São João Baptista em Angra. Neste Forte encontrava-se aquartelado o Regimento de Infantaria n.º 25 e em Ponta Delgada, no Forte de São Brás, encontrava-se aquartelado o Regimento de Infantaria n.º 26. Na Horta estava permanentemente estacionado um destacamento de infantaria, alternadamente do BI 25 ou do BI 26.


O recrutamento na Zona Militar dos Açores era efectuado por todo o arquipélago e o tempo de serviço militar era de três anos. Em 1916 com a declaração de guerra foi ordenada a reinspecção militar dos indivíduos com idades compreendidas entre os 20 e 45 anos (Bento, 2008: 407).


Durante a Grande Guerra o Comado Militar dos Açores foi governados pelos seguintes comandantes:

             General João Ricardo Brito                       General António Augusto Oliveira Guimarães            Coronel António Veríssimo de Sousa

                       (1914-1916)                                                            (1916-1917)                                                         (1917-1919)

Nos Açores, a Grande Guerra tem claramente duas fases distintas: a primeira entre 1914 e Junho de 1917; a segunda entre Julho de 1917, com a chegada dos Americanos e o ataque alemão, até ao fim do Depósito de Concentrados Alemães (Angra do Heroísmo) em Outubro de 1919.


Desde o início do conflito que os militares das Ilha de São Miguel (Ponta Delgada), Terceira (Angra) e Faia (Horta) acompanhavam a acção do inimigo ao longo do Atlântico, com especial cuidado para os ataques de surpresa que os alemães poderiam efectuar. Esta preocupação levou o Comando Militar dos Açores a transmitir várias vezes ao Ministério da Guerra em Lisboa a necessidade de reforço dos meios de combate disponíveis nos Açores, devido à antiguidade e ao mau estado de funcionamento dos mesmos.


A localização das ilhas, a capacidade de reabastecimento de navios em Ponta Delgada (São Miguel), a localização de centrais de comunicação por cabo submarino e TSF na Horta (Faial) e ainda a localização de um depósito de internados alemães e austro-húngaros em Angra do Heroísmo (Terceira), eram factores estratégicos que as tornavam alvos dos submarinos alemães.  Além destes alvos acrescia o grande número de comboios navais com transportes de tropas entre a América e França, desde 1917.


As unidades do Exército nos Açores, Regimento de Infantaria n.º 25 e n.º 26, não incorporaram unidades no Corpo Expedicionário Português CEP, que foi enviado para França, no entanto houve oficiais açorianos que integrados em outras unidades foram para a França. Destes ficaram prisioneiros dos alemães, durante a Batalha de La Lys, o Tenente João Augusto Gonçalves, os alferes João Machado Benevides, José Cabral Jr, Joaquim de Frias Coutinho, Luís Carlos Lacerda Nunes, António Martins Ferreira Jr e Sá Vieira. Primeiro estiveram aprisionados no Campo de Rasttat e depois foram transferidos para o Campo  de Breesen (Bento, 2008: 400).


Circunscrições de Recrutamento nos Açores


Em consequência do Artigo 124º do regulamento do serviço de recrutamento de 23 de Agosto de 1911, os Açores deveriam contribuir para o recrutamento de homens para a Armada em 1915. Existindo no arquipélago 2.066 sorteados, foram seleccionados 14: de Angra do Heroísmo, Circunscrição 25, 5 homens e de Ponta Delgada, Circunscrição 26, 9 homens (Ordens de Serviço do Exército, 1ª série, 1915, pp. 540-1).



Comissão de avaliação dos meios de defesa dos Açores


No relatório apresentado ao Estado Maior do Exercito, pela Comissão presidida pelo General Corte Real, em 31 de Outubro de 1917, (PT/AHM/DIV/3/01/18/24) em resultado do trabalho de avaliação das necessidades de defesa do arquipélago dos Açores, informação que foi necessária coligir para responder ao Ministro dos Estados Unidos, em Lisboa, quanto às medidas de defesa a adoptar nos Açores. Neste documento ficou detalhada a seguinte informação:•

     

     Nos Açores era possível uma mobilização de acordo com os números apresentados no seguinte quadro, mas seria necessário trazer quadros (oficiais e sargentos) do continente.  O número de espingardas e equipamento individual não é suficiente para equipar todos os homens a mobilizar, face ao qual é era necessário reforçar a dotação com material a trazer de Lisboa;


     - Não existia informação sobre os efectivos do Regimento n.º 25, de Angra do Heroísmo, que se encontravam na Horta;

     - Quanto às 17 peças de artilharia que as forças dos Estados Unidos solicitaram, não houve indicação dos calibres, tanto para Ponta Delgada como para a Horta, pelo que a comissão pensa que para a primeira localização se estará a pensar em peças fixas e para o segundo local de peças móveis;

     -Em resultado do considerou-se que será possível mobilizar cerca de 3.000 homens para os Açores, não existindo correspondência a qualquer número de Batarias para as 17 peças solicitadas.


Em relação às 17 peças solicitadas a Comissão indicou que existia a possibilidades de escolher das mesmas dentro do seguinte lote de 22 peças:


     -4 peças de 150mm TR do "NRP Almirante Reis";

     -8 peças de 120mm TR do "NRP Almirante Reis";

     -2 peças de 150mm TR do "NRP República", (à data a serem utilizadas em Cascais onde eram indispensáveis);

     -2 peças de 150mm TR do "NRP República", (que não se podia precisar se encontravam no Arsenal da Marinha ou em Cabo Verde e que poderiam ser substituídas por peças Armstrong que estão no Arsenal de Marinha);

     -2 peças de 100mm TR do "NRP República", (uma das quais estava em Porto Brandão e outra no Porto);

     -4 peças de 105mm, que se encontravam no depósito central e que eram consideradas aproveitáveis, estando 2 no Arsenal da Marinha e ignorava-se a localização das outras duas).


A Comissão colocou ao Estado Maior do Exército a questão de não ter sido informada sobre a localização onde se pretendia colocar as bocas de fogo, para a decisão sobre a escolha das mesmas, e ainda, a necessidade de saber a localização para o transporte e montagem das mesmas em Ponta Delgada e Horta.

Defesa da Ilha do Faial (Horta)


A importância geoestratégica do Faial no contexto internacional teve início quando em Outubro de 1876 se dá a construção do porto comercial, que mais tarde devido à sua localização veio a tornou-se numa estrutura importante ao serviço da marinha da Entente durante a Grande Guerra. Outro marco na história da ilha deu-se em Agosto de 1893 com a inauguração do cabo telegráfico submarino que ligou a Horta (Alagoa) a Lisboa (Carcavelos) e ao resto do Mundo.


Também no final do século XIX, com o desenvolvimento da meteorologia mundial e a consequente criação de estações para recolha de dados atmosféricos que Portugal entra neste processo e vê a abertura das suas primeiras quatro estações: Porto, Coimbra, Lisboa e Faro, seguidas por estações nas Berlengas, no Cabo de São Vicente e na Horta. Como as condições do tempo apresentam em geral uma deslocação de Oeste para Este, a Europa central viu no território nacional a oportunidade de estabelecer estações meteorológicas avançadas, que com a rede TSF e a rede de cabos telegráficos submarinos que permitiam a retransmissão da informação rapidamente para a Europa central. É neste contexto, ou seja o avançar para Oeste, que a recolha de dados meteorológicos e face às facilidades tecnológicas de comunicação existentes no Faial que em 1915 são inaugurados o Observatório Meteorológico e a Estação Meteorológica Internacional, com capacidade para retransmitir as observações meteorológicas comunicadas pelos navios.


A defesa militar terrestre da ilha do Faial contava com o 2º Batalhão de Infantaria 25, a quatro companhias: 4ª, 5ª, 6ª e 7ª, um destacamento de artilharia, guarnecido por efectivos do B1AM de Angra do Heroísmo ou do B2AM de Ponta Delgada de forma alternada que mais tarde foi reforçado por efectivos pertencentes ao Campo Entrincheirado de Lisboa, reforço que chegou em Maio de 1918.


Para além do porto natural eram também ponto estratégico os cabos submarinos de comunicações, o centro observatório meteorológico e os depósitos de combustível. Nesta estação de comunicações também se encontrava amarrado um cabo submarino alemão, o que veio a influenciar o interesse inglês por esta ilha. O porto da Horta estava bem situado e reunia todas as condições naturais para ser um grande porto no sistema de comboios, mas a ausência de protecção impediu que tal acontecesse.



Plano de Defesa Territorial do Faial


O plano inicial de defesa pressupunha a utilização da Bataria de Guarnição e do Batalhão de Infantaria da seguinte forma:


1) Artilharia - A divisão da Bataria de Guarnição em duas secções de duas peças cada:


a) Uma secção de artilharia no Pico Queimado, duas peças de 80mm, disposta no terreno com possibilitava de executar fogo cruzado sobre o acesso à praia da Horta;


b) Uma secção de artilharia na foz da ribeira da Conceição, duas peças de 80mm, disposta no terreno com possibilitava de executar fogo cruzado sobre o acesso à praia da Horta;


2) Infantaria - A divisão do 2º Batalhão do RI 25 em destacamentos com a seguinte disposição no terreno:


a) Um destacamento de guarda ao perímetro exterior do paiol e do local da amarração do cabo telegráfico submarino da The Comercial Cable Co. (Alagoa);


b) Um destacamento de guarda ao Quartel de Infantaria RI25, no Convento do Carmo;


c) Um destacamento de guarda ao Quartel de Artilharia B1AM, no Forte de Santa Cruz;


d) Um destacamento de guarda à zona portuária da Horta, para vigia no monte da Guia, Farol do molhe, Cais e ponta da Espalamaca;


e) Uma coluna móvel com a missão de patrulha da área entre a Baía do Porto Pim e o local da amarração dos cabos telegráficos submarinos estrangeiros, que se encontrava a 150m a Nordeste da foz da ribeira da Conceição, e;


f)  Um piquete de prevenção.  



Após ter sido revisto o plano inicial, foi considerado pelo comando militar que os locais considerados como mais prováveis para um desembarque alemão eram a Praia do Almoxarife e o varadouro da freguesia do Capelo. Considerando que o dispositivo inicial já cobria a Praia do Almoxarife, foi apenas efectuada uma alteração que incluiu mais um destacamento de infantaria, de aproximadamente 35 homens, para junto ao Farol dos Capelinhos, que se manteve aceso durante o período de guerra, em parte porque o comandante do porto da Horta considerava que na sua perspectiva os alemães não tinham qualquer vantagem em destruir este farol e também porque o porto dos Capelinhos, em virtude da sua fraca qualidade também não seria certamente utilizado pelos alemãull ‹es. Este destacamento foi então reforçar a guarnição da Marinha de Guerra do posto semafórico instalado junto ao farol.


Em Novembro de 1916, o comandante do 2º Batalhão de Infantaria num relatório elaborado para o Ministério da Marinha, onde explica as providências tomadas para defesa da ilha, indica a necessidade da permanência de um navio de guerra o porto da Horta para fiscalização e policiamento dos bascos aí aportados, vigilância dos cabos telegráficos submarinos e impedimento da navegação no canal do Faial. No que se refere à artilharia faz referência à necessidade de substituição das quatro peças 80mm Mod. 1878 do Grupo de Artilharia de Guarnição, por outras quatro peças mais modernas, do tipo Schneider-Canet, Armstrong ou Krupp tiro rápido de 105 ou 150 mm, para as instalar no Monte da Guia e no Espalamaca. Faz por último referência à necessidade de fazer chegar à ilha uma bataria de metralhadoras, destinadas às forças de infantaria.


Mais tarde em Maio de 1918 a Bataria de Artilharia de Guarnição do Faial, que se encontrava aquartelada no Forte de Nª Senhora da Guia, na Ponta da Greta, Horta, recebeu uma peça de AE 150mm P (MK) Krupp, oriunda de São Miguel, pertencente ao Campo Entrincheirado de Lisboa.


Com as forças disponíveis e a limitação de meios de artilharia disponíveis na ilha, o sistema de defesa não apresentava uma intenção real de defesa do porto, mas sim uma defesa efectiva contra o desembarque de tropas inimigas nas praias. Refira-se que após a Batalha da Jutlândia, qualquer cenário de invasão das ilhas açorianas não podia apresentar uma escala maior do que um golpe-de-mão ou de um acto de sabotagem, em parte porque a marinha de guerra alemã de superfície se encontrava neutralizada e os submarinos apresentavam uma guarnição relativamente pequena para qualquer acção de maior envergadura.

Defesa da Ilha de São Miguel (Ponta Delgada)


A defesa da Ilha de São Miguel contava com o Regimento de Infantaria n.º 26, de Ponta Delgada, a Bataria de Artilharia N.º 2 Montada, com peças no Alto da Mãe de Deus (3 Armstrong 10/28), e a Bataria do Grupo de Guarnição 2 nas muralhas no forte de São Brás.


Comandantes do Regimento de Infantaria n.º 26,  de Ponta Delgada:


     Coronel Eduardo Agostinho Pereira (1913-1917)


     Coronel António Germano Serrão dos Reis (1917-1920)

Coronel Eduardo Agostinho Pereira                                                   Coronel António dos Reis

         comandante do BI 26, 1913-1917                                                 comandante do BI 26, 1917-1920

Posteriormente ao ataque alemão de 4 de Julho de 1917 foi colocada uma terceira Bateria de Artilharia no Porto de Desinfecção em Santa Clara (3 peças de 70mm obsoletas), Estas armas foram substituídas em Janeiro de 1918 por 3 peças 150mm Krupp. A Bateria foi mais tarde substituída por uma peça de tiro rápido fornecida pelos Corpo de Marines dos Estados Unidos que reforçavam a defesa da Ilha.


Após o ataque em Dezembro de 1916 ao Funchal, Ilha da Madeira, foi colocado um Pelotão de Infantaria, cerca de 50 homens, junto da Igreja da Matriz e passaram a ser efectuadas patrulhas nocturnas pela cidade de Ponta Delgada.


A defesa naval do porto artificial ficou a cargo do Capitão-de-fragata Júlio Milheiro, que também teve o encargo de organizar a defesa naval da ilha e a coordenar com o comandante do Regimento de Infantaria n.º26. O Capitão-de-fragata Júlio Milheiro foi posteriormente nomeado Comandante da Defesa Marítima dos Açores (Inso, 2006: 67). Em 1918, com o Decreto-Lei n.º 3-771, de 20 de Janeiro, Comandante da Defesa Marítima dos Açores é organizado tendo então assumido o comando o Contra-Almirante Augusto Eduardo Neuparth  até 12 Abril de 1918 e posteriormente assumido o Capitão-de-Fragata Luís Constantino da Silva. Com o final da Grande Guerra o Comando foi extinto, em 6 de Janeiro de 1919.

Contra-Almirante Augusto Eduardo Neuparth

                          (1918-1918)

Após a declaração de guerra em Março de 1916, Lisboa enviou para Ponta Delgada, em Abril de 1916, 5 peças navais Armstrong 100mm/28 de reparo naval "Vavasseur" que pertenciam às antigas canhoneiras Ave, Rio Lima e Zambeze. Estas peças foram montadas em duas baterias, uma no Espaldão com 3 peças e outra na Mãe de Deus com 2 peças.


Em 1916, a Marinha portuguesa apenas mantinha estacionado permanentemente nos Açores a Canhoneira "NPR Açor", comandada pelo 1º Tenente Augusto Goulart de Medeiros, cujo comando manteve até 27 de Outubro de 1917, quando foi substituído pelo Capitão-tenente António Rafael da Rocha Rodrigues Basto, por causa de se ter deflagrado um surto de gripe pneumónica a bordo em 25 de Outubro (Mendes, 1989: 59-60).


Em 1917, após o ataque de 4 de Julho, foi improvisada uma barragem metálica à entrada do porto, como defesa contra torpedos, e estabeleceu-se um serviço de patrulhas no mar com o vapor "Furnas" e alguns gasolinas mobilizados. Neste serviço também colaborou o cruzador francês "Friant", durante o tempo que permaneceu em Ponta Delgada.


As barragens eram constituídas por batelões interligados por um cabo de aço fixo pelas extremidades a duas bóias, que servia de suporte a um chicote de amarras que pesava perto de 60 toneladas. para entrar no porto artificial era necessário desamarrar uma das bóias. Mais tarde este aparelho foi substituído por uma rede metálica recebida de Lisboa, mas que o mar destruiu e obrigou a se utilizar novamente o chicote de amarras. Posteriormente os americanos forneceram uma nova rede metálica (Inso, 2006: 69).

Para reforço da segurança do porto chegou a 17 de Julho de 1917 o Aviso "NRP 5 de Outubro", comandado pelo Capitão-tenente Júdice Bicker, que ali se manteve até 12 de Setembro de 1917. A missão deste navio tinha mais o carácter de serenar o medo da população, uma vez que a sua artilharia era completamente antiquada. Outros dois navios da Armada estiveram temporariamente estacionados no porto de Ponta Delgada durante o ano de 1917: Canhoneira "NRP Beira" de 22 de Julho a 12 de Agosto e o Contratorpedeiro "NRP Douro" de 6 a 19 de Outubro.


Em 1918, mais pela necessidade de contrabalançar a aproximação da população dos Estados Unidos do que reforçar a defesa do porto de Ponta Delgada, que já se encontrava bem defendido, foi enviado a 15 de Abril o Cruzador "NRP Vasco da Gama", comandado pelo Contra-almirante Augusto Eduardo Neuparth. Em Junho de 1918 chegou a Canhoneira "NRP Ibo", comandada pelo 1º Tenente Correia da Silva.


Para além do porto artificial eram também pontos estratégicos os depósitos de combustível, o posto de TSF no Pico do Vigário e o cabo submarino de comunicações. Durante a Grande Guerra o porto artificial de Ponta Delgada chegou a receber 80 navios por dia, devido aos comboios navais que circulavam entre a América e a Europa.


Em 27 de Abril de 1918 estiveram no porto artificial 73 embarcações, entre elas 3 com mais de 10 mil toneladas, e até final de Junho contaram-se cerca de 300 navios, em comboios de 30 a 40. No início de Maio encontravam-se no porto artificial 42 navios, entre os quais alguns de 8 mil toneladas (Ilustração Portuguesa, 1918: n.º 640, p. 417).


Nas memórias do 1º Tenente Correia da Silva, relata-nos a actividade de vigilância marítima junto à entrada do porto artificial: "Em finais de Julho [1918], com os galões recentes de Capitão-tenente, segui [para os Açores] a retomar o meu comando [da "NRP Ibo"], a bordo do "San Miguel", que o "NRP Almirante Paço d'Arcos", [...] comboiou. Um avião americano, na manhã de 4 de Agosto, veio ao mar de Ponta Delgada reconhecer o navio que se aproximava. Um submarino americano, amarrado a uma bóia, estava de vigia à entrada do porto artificial." (Silva, 1931: 213).


Como nota indica-se que a gripe pneumónica que grassou na ilha de São Miguel no inverno de 1918 matou mais de 2.000 pessoas, na maioria jovens.

Defesa da Ilha Terceira (Angra do Heroísmo)


A defesa da Ilha Terceira contava o Regimento de Infantaria n.º 25, de Angra do Heroísmo,  e a Bataria de Artilharia N.º 1 de Montada, com peças Schneider-Canet 75mm.


Comandantes do Regimento n.º 25,  Angra do Heroísmo:


     Coronel António Francisco Martins (1914-1917)

     

     Coronel Veríssimo José de Andrade (1917-1920)

Coronel António Francisco Martins            Coronel Veríssimo José de Andrade

comandante do BI25,1914-1917                comandante do BI 25, 1917-1920


No Forte de São João Baptista foi instalada uma Bateria, 2 peças de 150mm Krupp nas suas muralhas e instalada uma Bateria de Artilharia de Montanha, 2 peças de 75mm Schneider-Canet, no chamado "Posto de Desinfecção", aproveitando-se a sua localização do Forte de São Sebastião sobranceira ao Porto de Pipas, que dá acesso à cidade. O conjunto da Forte de São João Baptista, também denominado Fortaleza do Monte Brasil, com o Forte de São Sebastião, também denominado Castelinho, proporcionavam uma forte defesa do Porto de Pipas.

Porto de Pipas, ao fundo vê-se a cidade de Angra do Heroísmo                                                            

A localização, a capacidade de abastecimento e o campo de internados alemães e austro-húngaros tornava a ilha um alvo de ataque alemão.

Entrada do Regimento de Infantaria n.º 25, de Angra do Heroísmo, no Forte de São João Baptista

pela rampa lateral junto ao relvão, formado em coluna de marcha, em 1917.

Prisioneiros Alemães

Forças Americanas

Valor Estratégico

Os Açores na Grande Guerra

A defesa da Ilha do Faial contava com um destacamento de Infantaria (do BI25 ou do BI26) e uma unidade de Artilharia pertencente ao Grupo de Guarnição 1 (Angra).


Com o aumento da importância do porto artificial de Ponta Delgada, o porto da Horta foi progressivamente perdendo a sua actividade, comparando com a importância que apresentava desde a instalação dos cabos submarinos.


Em Junho de 1918 a Canhoneira "NRP Açor" foi equipada com duas peças de 47mm e passou a fundear no porto da Horta para defesa da Ilha do Faial. Durante o período em que a Canhoneira "NRP Açor" esteve em reparações no porto de Ponta Delgada, na rampa das oficinas Bensaúde, o Cruzador "NRP Vasco da Gama" permaneceu no porto da Horta (Silva, 1931: 214).

Para além do porto natural eram também ponto estratégico os cabos submarinos de comunicações, o centro observatório meteorológico e os depósitos de combustível. Nesta estação de comunicações também se encontrava amarrado um cabo submarino alemão, o que veio a influenciar o interesse inglês por esta ilha (in VVAA(2005), intervenção de José Medeiros Ferreira, p. 103, "Ilhas e Arquipélago: Unidade e Dispersão")

A canhoneira "NRP Açor" sulcou os mares dos Açores durante anos, fazendo base na baía do Faial. Prestou relevantes serviços às populações e à Marinha de Guerra, transportando pessoas e bens e principalmente correspondência postal em ocasiões de impedimento dos portos por motivos de "quarentena" ou quando os transportes regulares não o podiam fazer. Na foto observa-se no fundo o molhe do porto da Horta ainda em construção. Em primeiro plano vê-se uma canoa em primeiro plano pertencente à equipa da Comercial Cable (Espólio de Humberto Serrão, FPC EHS/CX1/SPC16.1.)


Durante a Grande Guerra houve grandes alterações nas ligações da rede de cabos submarinos amarrados à ilha da Horta, com o corte dos cabos alemães no início da guerra.


No dia 5 de Agosto de 1914, o cabo alemão amarrado entre Emden e Horta foi cortado pelo navio inglês "Telconia". O cabo alemão entre Horta e New York (cabo New York I) continuou a trabalhar até 9 de Abril de 1915, data em que foi cortado junto aos Açores.


Quando a Alemanha declarou guerra a Portugal a 9 de Março de 1916, os alemães empregados da DAT na Horta foram levados sob prisão para a ilha Terceira.


A 15 de Maio de 1916 o cabo New York II foi cortado perto dos Açores.


Em Julho de 1917, após a entrada dos Estados Unidos da América na guerra, os ingleses desviaram os cabos alemães Borkum I e New York I respectivamente dos seus pontos de amarração na Europa para Penzance, no sul da Inglaterra e do extremo ligado a Manhattan Beach para Halifax (Canadá).


Em Novembro de 1917, os franceses também desviaram os extremos de amarração dos outros dois cabos alemães Borkum II e New York II, respectivamente Deodlon na França e da estação de Far Rockaway, para Manhattan Beach.


Em 1918, terminava o prazo de 25 anos de direito exclusivo concedido à companhia inglesa no contrato de 1893 para exploração dos cabos submarinos nos Açores.


Em 1919 durante a discussão do Tratado de Versalhes os cabos submarinos alemães já desviados para frança são concedidos aos franceses. Na conferência internacional de 1920 Portugal reclamou a posse de parte dos cabos submarinos alemães, mas a pretensão não foi atendida (Espólio de Humberto Serrão, FPC EHS/CX1/SPC16.1.)

O teatro de guerra na Região dos Açores

1916 - A apreensão dos navios alemães surtos nos portos açorianos

A 23 de Fevereiro 1916 Portugal inicia a apreensão todos os navios mercantes alemães e austro-húngaros surtos nos portos portugueses, a fim de serem colocados ao serviço da "causa comum luso-britânica". A ordem foi executada nos Açores na madrugada de 26 de Fevereiro de 1916, por dois destacamentos de infantaria do Regimento n.º 26, comandados pelos capitães Albergaria e Ivens, em Ponta Delgada, onde foram tomados 3 navios alemães, o "Schiffbek" baptizado como "Santa Maria", o "Schwarzburg" baptizado como "Ponta Delgada" e o "Margretha" baptizado como "Graciosa".


Na mesma altura o destacamento da Horta tomou outros 3 navios alemães que ali se encontravam surtos, o "Max" baptizado como "Flores", o "Sardinia" baptizado como "São Jorge" e o "Shaumburg" baptizado como "Horta".


As tripulações e outros cidadãos alemães que entretanto tinham sido detidos e se encontrava na localidade de Lagoa foram transferidos para o campo de internados em Angra do Heroísmo. Esta situaçãull ‹o acaba por gerar conflitos entre a população e os internados, o que leva a ser declarado o estado de sítio na Ilha na Ilha Terceira (Bento, 2008: 407).


Na Ilha Terceira internaram-se grande parte dos alemães e austríacos capturados quando dos arrestos, que incluiu os provenientes da Índia, Angola, Cabo Verde e Madeira.


DECRETO N.º 2243


"Usando da faculdade que me concede a lei n.º 480, de 7 de Fevereiro de 1916, e nos termos do decreto n.º 2 :229, de 23 do referido mês, e sob proposta do Governo: hei por bem decretar o seguinte: Artigo único. São requisitados para o serviço do Estado os navios alemães  Schwarzburg  ( vapor ),  Schiffbek  ( galera ), e  Margareth  ( galera ), surtos em Ponta Delgada, na Ilha de S. Miguel, e os navios da mesma nacionalidade:  Schaumburg ( vapor ),  Sardinia  (vapor ) e  Max  ( galera ), surtos no porto da Horta, na Ilha do Faial."

1º Ataque Alemão aos Açores

Em Dezembro de 1916 a cidade da Horta, na Ilha do Faial, foi rondada por um submarino alemão cuja identificação se desconhece. A razão deste ataque terá sido devido à existência de instalações de amarração do cabo submarino de comunicações que ali estava ligado. A situação não terá tido repercussões de maior, uma vez que não se encontram registos ao nível da comunicação social continental da época.


2º Ataque Alemão aos Açores (Caso Orion)

O ataque ocorreu em Ponta Delgada, a  4 de Julho de 1917, por volta das cinco horas da manhã. Em telegrama expedido ao Ministro da Guerra, o comandante militar de Ponta Delgada informava-o que um submarino inimigo de grandes dimensões havia bombardeado terra em repetidos e intermitentes ataques, atingindo os arredores da cidade até aproximadamente 4 km da costa. Parece que havia a intenção de atingir o posto de TSF que estava instalado no Ramalho. O submarino alemão disparou 50 tiros com os seus dois canhões de 150mm sobre a ilha.


Dois tiros caíram na Canada do Pilar, na Fajã de Cima, onde provocaram a morte de Tomásia Pacheco de 16 anos de idade, filha de João Pacheco e  ferimentos com gravidade a sua irmã Maria Pacheco, Maria Júlia Carreiro de 45 anos e sua filha Henriqueta da Conceição Machado de 18 e Joaquim Machado (Ecos da Fajã de Cima, Julho de 1997, pp.6-9., por António Paquete).


Outros tiros caíram na Fajã de Baixo, na Serra Gorda, em Arribanas, em Pau Amarelo, Santa Clara, Canada do Paim, Recantos dos Arrifes e em São Gonçalo. 


Quando o submarino alemão U-155 abriu fogo contra a cidade de Ponta Delgada, a bateria instalada na Mãe de Deus, sob o comando do Alferes António Francisco Castilho da Costa, respondeu assim que o submarino entrou no seu campo de tiro apesar da distância a que este disparava sobre Ponta Delgada, a mais de 6.000m, o que fez com que não terminasse o fogo após quatro tiros (Inso, 2006: 68).

  Pedaços de uma das granadas que caiu na Canada do Pilar, Ilustração Portuguesa n.º 600

Casa do Sr. Francisco do Rego atingida por uma das granadas do submarino em 4 de Julho de 1917, Ilustração Portuguesa n.º 600

Maria Júlia Carreiro ferida, Ilustração Portuguesa n.º 601

Maria Pacheco (ferida), irmã de Tomásia morta no bombardeamento, Ilustração Portuguesa n.º 601

Quando o submarino alemão U-155 abriu fogo contra a cidade de Ponta Delgada, a bateria instalada na Mãe de Deus, sob o comando do Alferes António Francisco Castilho da Costa, respondeu assim que o submarino entrou no seu campo de tiro apesar da distância a que este disparava sobre Ponta Delgada, a mais de 6.000m, o que fez com que não terminasse o fogo após quatro tiros (Inso, 2006: 68).


Em 1923, foi publicado um artigo por Manuel Martins Soeiro, dos Mosteiros, que questionava a posiçãull ‹o geral sobre a influência do "USS Orion" no afastamento do submarino alemão, argumentando que o submarino não conhecia o calibre da Bateria da Mãe de Deus (100mm) e que este poderia temer a correcção do tiro (Bento, 2008: 415).

O "USS Orion", um navio norte-americano que trouxera o primeiro carregamento de carvão americano para São Miguel e que estava a ser reparado com a ré soerguida, que ripostou com eficácia sobre o submarino alemão com uma peça de tiro rápido (100mm) que dispunha a bordo.


Na foto retrata-se o Capitão-tenente John H. Boesch, da USNRF, junto ao canhãull ‹o que disparou sobre o submarino.



O Jornal "Diário dos Açores" de 4 de Julho, refere que foram 8 tiros disparados pelo submarino sobre o porto de Ponta Delgada, 4 disparados da Bateria da Mãe de Deus e 15 disparados de bordo do "USS Orion".


O submarino efectuou um novo ataque por volta das 4 horas da tarde sobre Ponta Delgada (in Os Açores & O Controlo do Atlântico, páginas 113-115, edição 1993) e mantêm-se por perto até às 9 horas da noite, quando se afasta em direcção de Santa Maria.


Foi na sequência deste ataque que os Estados Unidos decidiram reforçar a guarnição da Base Americana com uma companhia de Marines.


A população açoriana ficou convencida que a sua defesa apenas poderia ser garantida pelas forças dos Estados Unidos ali presentes. Houve de imediato um voto de louvor da Junta Geral àquelas forças e a Câmara de Ponta Delgada abriu uma subscrição pública para a compra de uma prenda a oferecer ao comandante do "USS Orion".


O "Diário dos Açores" de 21 de Agosto de 1917, escrevia que a admiração da população era tal que um escasso mês volvido já se vendiam em Ponta Delgada cigarros de fabrico local com a marca Orion.

Face à ajuda americana, imediata e eficaz, embora acidental e à frequente visita de navios de guerra americanos ao porto artificial de Ponta Delgada, a população ganhou um sentimento de segurança com a presença americana.


O Jornal "Diário dos Açores" manteve uma campanha de protesto contra a situação de insegurança e de abandono que se sentia por parte da administração central, em Lisboa, reflexo da vontade da população se aproximar aos Estados Unidos com a presença da Base Americana. Esta campanha manteve-se durante o mês de Julho de 1917 até que o empolamento da opinião pública levou a que aparecessem manifestações de protesto.


A 27 de Julho a censura fez publicar no jornal uma coluna em branco e a juntar à situação aconteceu também uma desordem entre a população local e os marinheiros americanos, que foi abortada por um disparo de canhão a bordo do "USS Orion" e que funcionou como alarme de recolha de todos os marinheiros à Base. Esta campanha contra a administração central só terminou quando em 7 de Agosto o jornal publicou que o governador civil António Rodrigues Salgado se encontrava demissionário.


O reconhecimento da população açoriana e do Governo português pela actuação da tripulação do "USS Orion", em 4 de Julho de 1917, de levou a que em 8 de Abril de 1923, no porto de Boston, os oficiais e marinheiros colectivamente tivessem sido agraciados com a Ordem da Torre e Espada. Na foto vê-se o "USS Orion" por detrás da tripulação.

Vista da Baía de Angra do Heroísmo

Novos avistamentos de submarinos alemães

Os novos alarmes de submarinos começaram no início de Setembro de 1917. Os primeiros três avistamentos foram na Ilha de Santa Maria. Em 11 de Setembro um avião americano avistou um submarino a 16 milhas ao Sul de Ponta Delgada. Saíram à sua procura dois submarinos americanos, a "NRP Ibo" e uma nova patrulha aérea. A "NRP Açor" foi colocada junto à entrada do Porto. O submarino acabou por não ser encontrado.


A 31 de Marco de 1918, a 140 milhas do Faial (Horta) foi torpedeado o vapor dinamarquês "Indien" de 4.199T. Chegou a Angra do Heroísmo (Terceira) um salva-vidas com 9 tripulantes, não se tendo encontrado 3 outros salva-vidas, incluindo o do comandante. ("A Capital", de 7 de Abril de 1918). O submarino alemão que o atacou foi o U152 comandado por Constantine Kolbe. Este submarino manteve-se em caça desde Janeiro até Abril de 1918, quase sempre em águas portuguesas, principalmente perto do Algarve, Madeira e Açores. As notícias sobre o equipamento do submarino eram largamente exageradas, 2 canhões de 170mm, mais 2 canhões de 150mm. Na realidade este submarino estava equipado com 2 canhões de 105mm, o que era muito mais que suficiente para afundar o "Indien". Os subservientes indicaram que o submarino intimou a tripulação a abandonar o navio e depois destes se afastarem afundaram-no com 42 tiros ("A Capital", de 8 de Abril de 1918).


A 20 de Setembro o vapor inglês "Taormina" laçou um SOS por estar a ser atacado a 200 milhas a Sueste de Ponta Delgada, mas conseguiu escapar sozinho.


A  24 de Setembro o vapor "Lourenço Marques" que vinha de Moçambique com tropas expedicionárias que regressavam ao Continente, indicou ter avistado um submarino a 40 milhas de Santa Maria.


A 6 de Outubro o Caça-minas "NRP Celestino Soares", quando comboiava o vapor "San Miguel" comunicou ao Almirantado de Ponta Delgada que tinha avistado um submarino.


A 14 de Outubro dá-se o ataque ao vapor "San Miguel" que estava a ser comboiado pelo Caça-minas "NRP Augusto de Castilho" (Silva, 1931: 213-226).

O Último Combate da Armada Portuguesa

O Caça-minas "NRP Augusto Castilho", comandado pelo 1º Tenente José Botelho de Carvalho Araújo saiu de Lisboa, a 8 de Outubro de 1918, com a missão de escoltar o paquete "Beira" da Empresa Nacional de Navegação até ao Funchal. Chegado à Madeira, no dia 10 de Outubro, deveria ficar em serviço de policiamento e defesa da ilha, mas como à data o porto de Lisboa ainda se encontrava classificado como "porto sujo", devido à epidemia de pneumónica no continente, foi-lhe imposto uma quarentena (10 dias).

1º Tenente Carvalho Araújo

A bordo do "NRP Augusto Castilho" 1917

Para ultrapassar a situação da tripulação ter de ficar fechada no navio ao largo durante 10 dias sem permissão de ir a terra e a imobilização do navio durante tanto tempo, foi dada ordem para o Caça-minas "NRP Augusto Castilho" substituir a Canhoneira "NRP Mandovi" na missão de comboiar até os Açores o paquete "San Miguel" que se encontrava a carregar no porto do Funchal.


No dia 13 de Outubro o "NRP Augusto Castilho" suspendeu ferro e iniciou a escolta do paquete "San Miguel" em direcção ao porto de Ponta Delgada, em São Miguel. No paquete seguiam 206 passageiros civis e no "NRP Augusto Castilho" 2 passageiros militares que tinham aproveitado a viagem em gozo de férias à Madeira e 4 passageiros civis (3 rapazes de cerca de 15 anos e um homem de cerca de 47 anos de profissãull ‹o serralheiro) que também para ali se dirigiam a fim de trabalhar e que por causa da quarentena foram obrigados a seguir para os Açores.


A viagem iniciou-se às 4 horas da tarde e por determinação do comandante da "NRP  Augusto Castilho", 1º Tenente José Botelho de Carvalho Araújo, foi estipulada a velocidade de cruzeiro de 9 nós para ambos os navios. O "San Miguel" viajava colocado a estibordo do caça-minas.


De acordo com o relatório de Kurt von Piotr, o submarino alemão U-139 detectou o comboio e perseguiu-o durante 3 horas até que o comandante Lothar von Arnauld de La Priére deu ordem de ataque a tiro de canhão.


O ataque do submarino deu-se às 6h e 15mn da manhã, de 14 de Outubro de 1918, com um tiro de canhão disparado de numa posição à popa do caça-minas. A resposta da peça de 47mm da ré foi quase imediata, mas o submarino encontrava-se fora do alcance desta peça. A primeira manobra envolveu o disparo de munições de fumo para criar uma cortina para proteger a fuga do "San Miguel", mas rapidamente ficaram esgotadas as caixas com munições de fumo que permitiam criar a camuflagem, ficando ambos os navios novamente a descoberto.

Vapor San Miguel - 1918

O submarino alemão continuava a preferir alvejar o "San Miguel" o que levou a que o paquete fugisse em marcha força, chegando a alcançar os 14 nós. Como o submarino continuava a alvejar o "San Miguel" com as suas duas peças de 150mm, o comandante Carvalho Araújo, para impedir o fogo inimigo sobre o navio de passageiros virou sobre o submarino e com as máquinas em esforço, o que lhe permitiu alcançar uma velocidade de 10,5 nós, lançou-se sobre o submarino fazendo fogo intenso com a peça de 65mm em caça. A única hipótese que o caça-minas tinha era de se aproximar até à distância útil de tiro e tentar abalroar o inimigo.


Com esta manobra o comandante Carvalho Araújo salvou os 206 passageiros do paquete "San Miguel", mas determinou o sacrifício do seu navio. O submarino, que continuava fora do alcance das armas do "NRP Augusto Castilho", começa então a fazer fogo sobre este e a vitimar a sua tripulação. Só depois de ter gasto muitas munições é que caiu a primeira a bordo e depois estilhaços de outras, os alemães pela dificuldade de acertar directamente no "NRP Augusto Castilho", começaram a utilizar granadas de estilhaços com espoletas de tempo retardado para as rebentarem por cima do navio (Inso, 2006:99).


O fogo em caça da peça de 65mm de proa manteve-se até que a dilatação da culatra impediu a colocação de mais granadas, mas a peça de ré de 47mm, apesar da sua péssima posição de tiro, manteve-se a fazer fogo pela alheta de bombordo até acabar as munições. Foram gastas no total 150 granadas de 65mm e 70 granadas de 47mm.


Quando o comandante Carvalho Araújo verificou que o "San Miguel" já se encontrava suficientemente longe junto à linha do horizonte e porque já se encontrava sem mais munições ordenou que parassem as máquinas e hasteasse o pavilhão nacional. Entretanto, enquanto se cumpriam as ordens um tiro alemão caiu certeiro sobre o navio atingindo mortalmente o comandante Carvalho Araújo. Após se ter içado o pavilhão nacional foi dada a ordem de abandonar o navio. O salva-vidas foi lançado ao mar com dificuldade o que levou a que muitos se lançassem ao mar agarrados a bóias e destroços do navio.


Quando, ainda, se estava a lançar o segundo salva-vidas ao mar rebenta perto do navio uma outra granada e é então que se percebe que os alemães ainda continuavam a disparar por causa da bandeira nacional estar içada. Foi então quando um dos sinaleiros arriou o pavilhão nacional que o fogo inimigo cessou. Eram 8h e 30mn da manhã de 14 de Outubro de 1918. A luta durou 2h e 15mn.


No final do combate o "NRP Augusto Castilho" encontrava-se 200 milhas da terra mais próxima (ilha de Santa Maria). Ficavam para trás 6 tripulantes mortos, incluindo o comandante, e um civil de cerca de 47 anos cujo nome não ficou conhecido.  Para o salva-vidas subiram 28 homens, tendo ficado agarrados a uma jangada 12 homens que vieram a ser recolhidos pelo próprio submarino inimigo.

À MEMÓRIA DE CARVALHO DE ARAÚJO - "NARRATIVA TRÁGICO-MARÍTIMA"

Documentário alemão 1918, duração 05:20, sem som.

Filmado a bordo do U-139, quando do combate com o NRP Augusto Castilho.

ID CP-MC: 2000882-008-00.36.13.00

Os 12 sobreviventes que se encontravam na jangada, tentaram comunicar com o salva-vidas mas não o conseguiram, acabando por vê-la afastar-se. Foram cerca de duas horas agarrados à jangada até que apareceu novamente o submarino alemão U-139  que os puxou para bordo. Nessa ocasião deu para verificar que o submarino tinha sido atingido pelo menos uma vez pelas armas do "NRP Augusto Castilho".

O médico alemão com a ajuda de alguns marinheiros aplicou um tratamento primário ao Dispensador João Loureiro e ao 1º Marinheiro Gregório, e aplicou pensos sobre ferimentos ligeiros de outros portugueses.


Em francês um oficial alemão dirigiu-se ao Guarda-marinha Manuel Ferraz e perguntou-lhe onde estava o comandante, ao qual foi respondido que estava morto. Em resposta o oficial alemão transmitiu-lhe que se tinham portado com heroísmo e que o comandante não esperava tanto dos portugueses.


Os alemães deixaram então que os portugueses voltassem ao "NRP Augusto Castilho" e que aí recolhessem algumas coisas e retirassem um bote que colocaram na água. Assim que o bote foi colocado na água os alemães mandaram os 12 portugueses partirem e afastarem-se do submarino. Começava uma viagem de 200 milhas numa casca de noz que ainda tinham um rombo. Nos sobreviventes existia a esperança do socorro da marinha portuguesa e americana que se encontrava fundeada no porto de Ponta Delgada.


Os 12 náufragos avistaram terra 5 dias depois do combate, às 11 horas de 19 de Outubro de 1918, mas só chegaram a terra às 21 horas, sempre seguindo a luz de um farol. Chegaram ao Nordeste da ilha de São Miguel, Ponta do Arnel.


O marinheiros que tinham seguido no salva-vidas chegaram a Santa Maria dois dias depois do combate, às 16 horas do dia 16 de Outubro de 1918 (Simões, 1920).


Os sobreviventes que se encontravam na ilha de Santa Maria, foram recolhidos pela Canhoneira "NRP Açor", que no dia 17 de Outubro fundeou em Vila do Porto para os recolher e trazer para Ponta Delgada (Mendes, 1989:59).

Lothar von Arnauld de La Priére, comandante do U-139

Grupo dos 12 náufragos que chegaram a Ponta de Arnel (São Miguel)

No filme feito pela tripulação do U-139, no momento da captura do "NRP Augusto Castilho", podemos ver os 12 homens e alguns alemães dentro do salva-vidas quando este já se encontrava amarado ao submarino. Numa cena seguinte é observado o médico alemão a prestar socorro a um dos feridos portugueses. Nesta cena é de realçar o estado de hipotermia do marinheiro que está a ser tratado. De seguida vê-se uma equipa alemã de abordagem que sobe para colocar cabos de ligação entre o submarino e o navio. Repare-se que os motores continuam a funcionar e a bandeira branca ainda está hasteada. Uma vez acostados a tripulação alemã retira do navio todas as provisões que encontra e outros abastecimentos de interesse. No final é filmado o afundamento do "NRP Augusto Castilho", primeiro tentam com uma mina que passa por debaixo do navio sem explodir, depois são colocadas cargas explosivas junto à linha de água que que provocam o afundamento.


Em socorro do vapor "San Miguel" saiu logo após a mensagem de SOS a Canhoneira "NRP Ibo" que se encontrava no porto de Ponta Delgada. Rumou em direcção a Santa Maria, que era o destino do transporte, e pelas 3 da tarde encontrou o navio. Foi então que soube Caça-minas "NRP Augusto de Castilho" tinha ficado para trás a combater o submarino. Nos jornais do dia 15 de Outubro saiu a notícia que o vapor "San Miguel" tinha sido socorrido por dois contratorpedeiros americanos e um cruzador inglês, o que não foi verdade e que acabou por ser desmentido pelo Almirantado. O único navio que foi em socorro do "San Miguel" doi o "NRP Ibo" (Silva, 1931:227-233).


No dia 16 de Outubro o Capitão-tenente Correia da Silva, da "NRP Ibo", conseguiu apoio do Almirantado americano para ir em busca dos náufragos do "NRP Augusto de Castilho", que lhe facultou uma flotilha constituída por 4 caça-submarinos (vespas) "USS SC-72", "USS SC-111", "USS SC-180" e "USS SC-331"e o rebocador de alto-mar  "USS Lapwing". A flotilha navegou desde Ponta Delgada até Santa Maria numa formação com o "NRP Ibo" à frente e o rebocador "USS Lapwing" à retaguarda. As vespas iam nas alhetas de cada um dos navios maiores. Depois de Santa Maria a flotilha mudou para uma formação em linha com uma distância entre navios de 2000m. As pesquisas duraram até ao final do dia, quando os navios americanos regressaram a Ponta Delgada. Sozinha a Canhoneira "NRP Ibo" chegou pelas 10 horas da noite ao local do afundamento, onde encontrou vestígios do "NRP Augusto de Castilho" a flutuarem.


Continuou em busca pelas águas de Santa Maria até que no dia 18 de Outubro recebeu ordem para regressar a Ponta Delgada, porque tinham chegado 30 náufragos da "NRP Augusto de Castilho" a Santa Maria.  No dia 20 de Outubro o Almirantado deu ordem para a "NRP Ibo se deslocar até Ponta do Arnel, na ilha de São Miguel, para ir buscar um segundo grupo de 12 náufragos da "NRP Augusto de Castilho" que ali tinha  chegado (Silva, 1931:236-246).

Carta para Luís Simões, em 1933

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