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Visão Estratégica I


A primeira visão estratégica que aqui referimos foi apresentada por Norman Herz, no seu livro "Operation Alacrity: The Azores and the War in the Atlantic".


Desde o tempo em que os galeões espanhóis vinham carregados da América com cargas preciosas que estes vinham organizados em unidades com escolta, por causa dos piratas e corsários que os atacavam. As cargas mais preciosas vinham em navios no interior do grupo e no exterior ficavam os de menor importância, os mesmo que muitas vezes eram atacados antes dos navios de escolta conseguirem afastar o inimigo. Esta mesma táctica voltou a ser utilizada pelos aliados durante a Grande Guerra e mais tarde na Segunda Guerra Mundial.


Os submarinos alemães, à imagem dos predadores dos séculos XVI e XVII, também utilizaram as águas do Arquipélago dos Açores como zona de caça, uma vez que as corrente e os ventos continuavam a levar que os navios que cruzavam o Oceano tomassem neste local um porto de abrigo para salvaguarda, abastecimento e por vezes reparações.


O porto de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, apesar de ser o maior porto natural dos Açores, não era um local bom para atracar por causa das altas vertentes vulcânicas que o cercam e cujos detritos que dessas encostas caiem sobre as margens obrigam que os navios não possam se aproximar da margem. Aberto a Sul também não protege os navios dos fortes ventos que sopram frequentemente.


Os Estados Unidos sempre tiveram boas relações com os Açores e e um dos seus primeiros consulados foi estabelecido em São Miguel, para representar os seus interesses na caça à baleia. Até à Grande Guerra era hábito vir aos Açores buscar homens para os seus barcos de caça à baleia o que levou posteriormente a que houvesse emigração de muitas famíull ’lias açorianas para os portos de pesca americanos.


Quando a 4 de Julho de 1917, um submarino alemão bombardeou o porto e a cidade de Ponta Delgada, em são Miguel, situação que já não acontecia desde o último bombardeamento espanhol no século XVII, foi o navio de abastecimento USS Orion, que tinha acompanhado uma força de cinco contratorpedeiros para estabelecer uma estação naval nos Açores que repeliu o submarino. Portugal deu facilidades aos aliados, ingleses e americanos, para utilizarem o porto do Faial, na Horta, e o porto de Ponta Delgada, em São Miguel, como bases da luta anti-submarina e como portos de segurança, abastecimento de combustível, água , viveres e para reparações.


Os alemães também tiveram o desejo de utilizar os Açores. Chegou a ser discutido pelo Almirantado alemão, durante os Winterarbeiten de 1897-98 (manobras de inverno), que num cenário de ataque aos Estados Unidos, seria necessário ter uma base naval nos Açores para possibilitar o abastecimento da esquadra de ataque. Assim, durante a Grande Guerra o Almirante von Holtzendorff, no programa de desenvolvimento para a Marinha de Guerra incluiu a necessidade de estabelecer bases navais ou em Dakar, na África francesa, ou nos Açores ou Cabo Verde, em território português, para servir de bases aos submarinos alemães. De facto os Açores tinham uma localização  perfeita para a localização de uma base operacional de submarinos a operarem no Oceano Atlântico e para lançarem ataques sobre as costas americanas. (1)



Visão Estratégica II


A segunda visão estratégica que aqui referimos foi apresentada no Colóquio realizado no auditório da Biblioteca Pública e Arquivo, João José da Graça, em 2010, com organização do Museu do Faial e da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, o patrocínio da ANACOM e da APTO e a colaboração da Comissão de antigos cabo-telegrafistas. Destacou-se a presença do historiador António José Telo, João Confraria, Luís Oliveira, Francisco Silva, Carlos Silveira, José Duarte da Silveira, Ricardo Madruga da Costa e Henrique Barreiros, presidente da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta.


O aumento do raio de acção dos submarinos permitiu alcançarem mais longe e passarem a alcançar a Madeira e os Açores a partir de 1915. Por causa desta situação a Esquadra do Atlântico Inglesa, (Atlantic Squadron), teve de se deslocar para sul indo colocar-se na baía de São Vicente, em Cabo Verde. Mesmo assim em 1916 a Esquadra Inglesa teve de se deslocar ainda mais para sul, para Cape Town, na África do Sul.  


Em 1915 a Esquadra inglesa não optou deslocar-se para a Horta porque o porto da baía do Faial (Horta) também não apresentava qualquer defesa contra submarinos, uma vez que não estava equipado com redes anti-torpedos, tal como qualquer outro porto nacional à data.


A baía do Funchal (Madeira) foi atacada em Dezembro de 1916 assim como a baía de São Vicente (Cabo Verde). Em resposta a Marinha de Guerra deslocou várias canhoneiras e navios de pesca armados (caça-minas e escoltas) para as águas dos arquipélagos. Navios maiores não apresentavam qualquer utilidade prática na guerra anti-submarina, a não ser servir de alvos. Os únicos navios de maior porte úteis na luta anti-submarina eram os contratorpedeiros equipados com cargas submarinas e as pequenas embarcações com capacidade de rocega de minas. Portugal utilizou os seus contratorpedeiros na escolta dos navios de transporte de tropas para França e a defesa das ilhas ficou a cargo das canhoneiras, escoltas e caça-minas.


Com a campanha submarina sem restrições e a entrada dos Estados Unidos na guerra, os portos dos Açores, Faial (Horta) e Ponta Delgada (São Miguel) passam a ser visto de forma diferente.


Na discussão estratégica efectuada pelos americanos e ingleses em Fort Monroe, em Abril de 1917, (Actas das reuniões nos Nacional Archives, Washington DC, Navy Departement, RG.) existiam dois conceitos estratégicos: os Estados Unidos estavam preocupados com a possibilidade de uma campanha submarina nas costas americanas. (no final de 1916 o U-53 afundou cinco navios na zona de New York). Os ingleses não acreditavam que existisse efectivamente esse perigo. Os ingleses defendiam que os navios americanos deviam se deslocar para as costas europeias, local onde os submarinos alemães iriam esperar a chegada das tropas americanas a França.


A instalação de uma base nos Açores era muito importante para que zonas mais isoladas não se tornassem bases de reabastecimento de submarinos alemães, que poderiam a partir dali atacar as costas americanas. Os ingleses acederam à instalação da base americana nos Açores como um cedência para que os americanos também colocassem unidades navais na Europa. A questão de abastecimento de submarinos em enseadas isoladas aconteceu em vários locais, em muito com o apoio de navios neutrais fretados para o efeito, como se encontra documentado em águas espanholas.


O porto de Ponta Delgada acabou por ser escolhido, apesar de pequeno, porque era fácil de defender com artilharia a partir de terra e de colocar uma rede anti-torpedos. O porto natural do Faial (Horta) tinha maior dificuldade de colocação de uma rede anti-torpedos.


A defesa do porto do Faial (Horta) apenas apresentava duas peças de artilharia de 90mm, antiquadas, e uma companhia de infantaria, cerca de 200 homens. (Arquivo Histórico Militar, Relatório do Comando Militar dos Açores, 18 de Novembro de 1914, 1Divisão, 35ª Secção, caixa 460).


A força navais americana (5 contratorpedeiros) não tinha a função de escoltar os comboios que passavam mais ao norte em direcçull ão a França, mais de impedir que os submarinos alemães utilizassem as ilhas açorianas para abastecimento e como de apoio para ataques às costas americanas.


Os navios que utilizaram o porto de ponta Delgada foram navios isolados que viajavam entre o Mediterrâneo e os Estados Unidos, unidades navais pequenas na rota Estados Unidos, Bermudas Açores, ou  navios avariados dos comboios do norte.


A Base Naval americana nos Açores foi essencialmente uma base de defesa avançada do continente americano contra os submarinos, e uma base auxiliar do dispositivo de comboios navais do Atlântico norte. As instruções dadas à marinha americana estacionada na base de Ponta Delgada era: "cobrir a área geral dos Açores", para impedir o seu uso pelos submarinos inimigos. (National Archives, Washington DC, NRC, documento de 10 de Julho de 1917.) Os Açores não foram um ponto estratégico para a defesa naval do Atlântico Norte, uma vez que os ingleses conseguiram bloquear eficazmente a marinha alemã de superfície. Também não foram uma base estratégica para o sistema de comboios que se vieram a utilizar a partir de 1917. Assim pela reduzida necessidade de espaço portuário por parte dos Estados Unidos, foi esta a razão pelo qual optaram pelo porto e Ponta Delgada e não do Faial. (2)



Visão Estratégica III


A primeira visão estratégica que aqui referimos foi apresentada por Seward W. Livermore (1948), no artigo publicado em "The Journal of Modern History", sobre The Azores in american Strategy-Diplomacy, 1917-1919.


Entre outras medidas para que os Estados Unidos cuidassem da salvaguarda do transporte de tropas e abastecimentos, entre a América e a Europa durante a Grande Guerra, adquiriu uma base naval temporária nos Açores.  Para que tal fosse possível foi necessário que Governo Americano, em nome da Marinha, tivesse encetado uma longa negociação com o Governo de Portugal. No entanto a Marinha americana já tinha feito planos imediatos para a utilização dos Açores como uma base intermédia de apoio às operações transatlânticas, tanto contra os submarinos alemães como para abastecimento e reparação naval dos navios envolvidos nos comboios navais.


Houve assim considerável confusão e demora para chegar a uma decisão política em respeito à natureza da Base Naval temporária e a sua localização. A Marinha americana não manteve os diplomatas americanos que negociavam com Portugal informados sobre as suas necessidades, o que levou Portugal a sentir que a chegada da força naval americana a Ponta Delgada teria alguma forma de ocupação territorial. Durante a investigação pós conflito que o Senado americano efectuou sobre a intervenção americana na Grande Guerra, o Almirante William S. Sims considerou que a Marinha americana não sobe tratar convenientemente, a nível diplomático, os arranjos necessários para a chegada das forças americanas aos Açores (Naval investigation: hearings before the subbcommittee of the Committee on Naval Affairs, United Satate senate 66th. cong. 2d sess Washington, 1921, I, 135-36).


O Governo português suspeitou dos motivos da chegada e instalação das forças americanas em Ponta Delgada, situação que nos circulos políticos de Lisboa se manteve mesmo após a retirada das forças americanas da ilha em 1919. Foram vários os esforços americanos para obterem direitos de aterragem e outros privilégios para a aviação comercial sem sucesso. O Governo americano apenas conseguiu obter facilidades portuárias na ilha de Ponta Delgada, para navios mercantes (State Departement Archives, National Archives, hereafter cited as S.D.A., Robert Lansing, secretary of state, to Thomas H. Birch, U.S. minister to Portugal, tel 603, Aug.5, 1919, 195-33 Azores/5ª). (3)

Notas

     

1 - Herz(2003), pp16-18.3


2 - Colóquio, O Porto da Horta na História do Atlântico (2010), pp. 23-26.


3 - Artigo de Seward W. Livermore, Seward W. (1948), "The Azores in American Strategy-Diplomacy, 1917-1919", The Journal of Modern History, Volume XX, September 1948, n.º 3, p.197.



Bibliografia


Herz, Norman (2003), Operation Alacrity: The Azores and the War in the Atlantic, Naval Institute Press


Colóquio "O Porto da Horta na História do Altântico", Horta, 2010, Museu da Horta org., Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, org. conf., Horta : Museu : A.A.A.L., D.L. 2011


Livermore, Seward W. (1948), The Azores in American Strategy-Diplomacy, 1917-1919, The Journal of Modern History, Volume XX, September 1948, n.º 3.

A questão estratégica dos Açores