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Quais os piores inimigos em África? “German or Germs”

Durante os quatro anos da Grande Guerra, 1914-1918, foi observada uma das maiores evoluções no campo da medicina. Esta evolução não se restringiu à organização dos serviços de saúde militares medico-hospitalares mas também ao campo do tratamento, diagnóstico e gestão de procedimentos cirúrgicos.  


Igualmente se verificou um grande avanço ao nível da Patologia, mas com diferente impacto nos resultados conseguidos pelos serviços de saúde na Europa e na África, assim como nos resultados conseguidos entre os serviços de saúde prestados pelo Exército Britânico e os prestados pelo Exército Português em África.


A presente comunicação mostra como as condições materiais influenciaram as condições de sobrevivência dos expedicionários a África, expondo questões básicas como o transporte, o acantonamento e em particular a questão da higiene tão importante em clima tropical.

Posto de Socorro na frente de combate em Mongua (Angola) 1914. Chefe dos Serviços de Saúde, do Batalhão de Marinha, Capitão-de-fragata médico Vasconcelos e Sá. Foto: Gonçalves, Júlio (1926), "O Quadrado da Mongua", s.e., Lisboa, Imp. Lucas & Cª.

Neste contexto é remarcada a importância da Medicina Tropical no teatro de guerra e apresenta-se um quadro histórico comparativo da realidade na frente ocidental europeia com a situação africana, assim como se remarca a falta de medidas profiláticas do Exército Português durante a Grande Guerra em África.


A questão, “German or Germs” quais os piores inimigos em África, espelha a verdadeira batalha pela sobrevivência dos portugueses em Moçambique entre 1914 e 1918.  

O Clima


Nas zonas intertropicais do Norte de Moçambique, o sol estabelece um excesso de calor e luz, de humidade e tensão eléctrica, e baixa pressão atmosférica, que implica um máximo de evaporação das águas e consequente condensação em chuvas torrenciais tão características.

 

São os elementos: temperatura, humidade, chuva, pressão atmosférica e ventos que definem o clima e enquanto agentes físicos foram e são determinantes para a vida e saúde humana. No entanto será na humidade e na temperatura que se encontraram os factores climáticos principais que tornam o clima do Norte de Moçambique doentio. São nestes dois factores que as doenças encontram as condições favoráveis ao desenvolvimento e à propagação dos seus agentes, desde as doenças infecciosas às doenças hídricas e parasitas.


Acresce que a região costeira Norte é geralmente baixa e pouco arborizada, arenosa, por vezes escarpada, recortada com pequenas ilhas, e é insalubre especialmente na época das chuvas junto aos vales fluviais alagadiços, desde a foz do Zambeze até à foz do Rovuma.


Floresta Tropical em Moçambique.

Foto: 2013 (Província Cabo Delgado, ex. Companhia do Niassa)


A estação chuvosa ia desde Outubro a Abril, caracterizada por altas temperaturas, com marcadas variações térmicas diurnas e nocturnas e com alto índice de humidade, e a época seca, desde Maio a Outubro, considerado o melhor período para a condução de operações militares por se mais aproximar do clima europeu, deste que os homens tivessem acesso a água potável.


Aclimatação


O calor implicava vários problemas. O primeiro problema que os expedicionários encontravam relacionava-se com a evaporação cutânea e pulmonar, uma das principais formas de perda de calor do organismo, cujo o excesso de vapor de água no ar ambiente tendia a restringir. O segundo problema surgia das alterações renais e da diminuição da quantidade de urina, que tendiam a propiciar condições de diminuição de resistência orgânica, no âmbito daquilo que se poderá denominar como auto-intoxicação, com aparecimento de febre climática e perturbações gastrointestinais.


Os raios solares também eram um factor climatérico dominante que devia ser evitado, uma vez que produzia borbulhas, eczemas e propiciava a anemia tropical com aparecimento de perturbações do sistema nervoso e psicoses. A baixa pressão atmosférica proporcionava ainda para o surgimento da denominada anemia tropical, por diminuição de oxigénio no sangue.

Neste contexto um expedicionário deveria ser vacinado contra a varíola e se portador sífilis deveria ter estado em tratamento pelo menos durante quatro anos antes de partir. O tratamento dos dentes também era muito importante. 


Em viagem era necessário acautelar a utilização de água salgada para lavagens por poder originar borbulhas e devia ser dado início ao uso quotidiano de quinino preventivo, evitar desarranjos gastrointestinais, ainda evitar bebidas alcoólicas.  

Porque era necessário criar uma adaptação ao clima à chegada, os melhores meses para desembarcar e para efectuar operações militares era entre Maio e Outubro, quando o clima à noite mais se igualava ao clima temperado europeu. Os expedicionários deveriam ter sido enviados de Lisboa na Primavera para desembarcarem pouco tempo depois no Outono (Maio) a Moçambique.


Desembarque em Palma


Mobilização para África


Sendo que se pretendia mobilizar tropas para actuarem num clima agreste e com focos de doenças tropicais, era importante investir na qualidade humana a nível de saúde, assim como no apoio sanitário aos mesmos.


Antes de partirem de Lisboa para Moçambique não existiu uma inspecção rigorosa, quer do ponto de vista físico, quer psíquico, aos homens que para lá seguiam. Apesar dos médicos militares terem alertado para as consequências, o Ministério da Guerra determinou que fossem mobilizados indiscriminadamente todos os homens disponíveis para África.


Assim, não foram criadas as necessárias juntas de inspecção e foram mandados para Moçambique inúmeros homens que de antemão estavam condenados pelo clima tropical. Mais se acresce situações como a transferência de tropas de artilharia vindas de Angola impaludadas, todos os soldados com baixa no Hospital da Estrela que sofriam de doenças venéreas e por último ninguém partiu vacinado contra o tifo.


O fardamento colonial também não era apropriado para a zona de operações, revelando-se a gola do casaco muito apertada e o capacete de feltro com abas muito estreitas e pesado, não protegendo devidamente do sol, nem a cara nem a nuca. A esta situação acresce que os homens do BI 21 (Coimbra) que foram enviados de castigo para África por insubordinação no embarque para França, foram enviados equipados com o fardamento de mescla para a Europa, inclusivo o chapéu sem protecção mínima contra o sol tropical.

Moçambique 1917 - Praças do BI21 (Farda Europeia) e BI28 (Farda Colonial)

As Viagens


O transporte de tropas para África representava sempre um sacrifício para os soldados, os quais eram alojados nos porões dos navios em espaços individuais  muito limitados. Se bem que se tentasse reproduzir a vivência da vida em Quartel ao longo da viagem, a delimitação de espaço provocada pelo número elevado de expedicionários transportados em cada navio, implicou constantemente situações de indisciplina e de deterioração do espírito militar e moral associado ao vício de jogo e álcool.


Poucos dias depois de se iniciar a viagem, que levava perto de um mês até Moçambique, os porões tornavam-se insalubres, pela falta de higiene geral dos porões e dos homens pela relutância ao banho. Também havia falta de limpeza dos uniformes, não só por falta de lavagem, como pela utilizavam de água salgada na mesma.


Os hábitos de higiene no soldado português eram quase inexistente, o que se demonstrou vir a ser um grave problema para os expedicionários e comandantes das quatro expedições militares. Tornou-se evidente que falta generalizada de hábitos de higiene agravaram os problemas os  problemas de saúde.



Ilustração Portuguesa, série II, nº. 581, Lisboa, 09 de Abril de 1917, p. 286

Serviço de Saúde Militar


A primeira expedição, em 1914, foi acompanhada por 5 dos 6 médicos previstos, o que à data foi tomado pelo comandante da Expedição como insuficiente. Na segunda Expedição em 1915 não houve alteração no serviço de saúde.  


Na terceira expedição, em 1916, face ao elevado número de baixas por motivo de doença nas expedições anteriores, foi estruturado um quadro diferente, com um médico por unidade militar e um acréscimo de 8 médicos e 150 praças, entre enfermeiros e auxiliares, destinados ao reforço de pessoal no Hospital da Base de Operações. Na quarta expedição continuou-se a atribuir um médico por unidade militar e foi estruturada a proporção de elementos para o Hospital na Base de Operações, de 8 para 11 médicos, restringindo o pessoal de enfermagem e auxiliar de 150 para 99 praças.


A falta de disciplina militar e de punições por falta de higiene levou a uma situação de desastre sanitário e irremediavelmente ao desastre militar. Após a subordinação das tropas expedicionárias portuguesas ao comando britânico e inspeccionadas as condições de higiene e de  alimentação nas enfermarias, surgiram melhorias nos serviços médicos militares portugueses.  

Ambulância automóvel (Ilustração Portuguesa, série II, nº. 569, Lisboa, 15 de Janeiro de 1917, p.48)


Navio-Hospital NRP Quelimane


Foi entregue à Marinha de Guerra, que o utilizou como navio-hospital desde Outubro de 1916 até ao final de 1917, foi transferido para os Transportes Marítimos do Estado em Janeiro de 1918, passando a ter função de navio de transporte.


No Arquivo Histórico Ultramarino encontra-se um vasto conjunto de documentação pertencente às enfermarias do navio-hospital, com os registos individuais de entrada e saída de doentes, sendo que pelos registos o navio se manteve fundeado junto a Palma, Baía de Tungue, dando apoio ao Hospital de Palma, na prestação de serviços de convalescença e transporte de doentes para o Hospital de Lourenço Marques.


A utilização de um navio-hospital foi uma solução alternativa à impossibilidade de colocar as instalações hospitalares em altitude, o que favorece a formação de hemoglobina, já que  por exemplo a estação marítima de Palma se encontrava em zona insalubre cujo estímulo fornecido pelo ar do mar não era suficiente.


A altitude mínima para os acantonamentos e hospitais deveria ser no mínimo acima dos 200m do nível do mar, onde se tem o abaixamento de um grau de temperatura e uma diminuição considerável da humidade.

Quelimane (ex-Kronprinz) junto a Lourenço Marques quando do arresto 3 de Fevereiro de 1916


Hospital Central Miguel Bombarda


Principal órgão de assistência médica em Moçambique, encontrava-se implantado num dos pontos mais altos e salubres da cidade de Lourenço Marques, e tinha a capacidade de satisfazer as exigências de diagnóstico, terapêuticas médicas e cirúrgicas. Tinha ainda em separado enfermarias para europeus e indígenas. Por grupos mórbidos, entre 1910 e 1920, para os casos de doença registou a seguinte percentagem de óbitos: moléstias do sistema nervoso 17%, moléstias do aparelho circulatório 13%, moléstias do aparelho respiratório 11% e moléstias do aparelho digestivo 7%.


A partir da unidade hospitalar foi promovida a luta contra o paludismo, lepra, varíola, parasitoeses e doença do sono. A varíola era um verdadeiro flagelo entre 1914 e 1918, cujo plano de vacinação só voltou a acusar números idênticos ao ano de 1910 em 1919. No norte de Moçambique, na zona do teatro de operações, o número de indivíduos nativos com parasitoeses intestinais e vesicais era de 100%. A doença do sono terá entrado no norte de Moçambique com a deslocação de indivíduos vindos da África Oriental Alemã (Tanzânia), com a tropas de general Paul Emil von Letow-Vorbeck.

Hospital Miguel Bombarda em Lourenço Marques (1914)


Em 1916 foi enviada uma ambulância da Delegação da CVP de Lisboa a acompanhar as tropas (3ª Expedição Militar), para reforçar o apoio médico na colónia. Esta ambulância  chegou a Lourenço Marques em Junho de 1916, tendo seguido de seguida para Porto Amélia onde cuidou de cerca de 300 doentes que aguardavam sua chegada. Esta ambulância permaneceu cerca de 6 meses no terreno tendo cuidando perto de 1.500 doentes. Houve outra em Mocímboa da Praia. Em 1917 a Delegação da CVP de Lourenço Marques procedeu à montagem de 5 hospitais de campanha situados respectivamente em: Palma, Mocímboa da Praia, Chomba, Patchitinembo e Nacature,  onde foram hospitalizados mais de  2.000 homens e assegurado a estabilização de perto de 9.000 doentes, feridos e o respectivo transporte para o Hospital de Lourenço Marques.

Serviços de Engenharia Militar


A Engenharia Militar tomou por opção a construção de acantonamentos baseadas em técnicas de construção das populações indígenas, sempre que não eram utilizados  os equipamentos individuais, o que levava a que as tropas estivessem sempre abrigadas em construções rudimentares. Nas Bases ou bivaques mais permanentes era usual recorrer a tendas ou barracões.


O grande problema residiu sempre no facto dos bivaques, acantonamentos e Bases terem sido construídos em locais que, sendo convenientes em termos operacionais, não correspondiam às melhores localizações em termos sanitários.  A opção inicial de colocar a Base em Porto Amélia foi bastante satisfatória, mas por necessidade de deslocar as forças para do Rovuma, a opção de colocar a Base em Palma revelou-se bastante negativa, porque se situava numa região pantanosa. Esta opção acabaria por ser responsável por causar grande parte das baixas por doença  verificadas entre os expedicionários.


Travessia do Rovuma: Ponte de Cavaletes

Quando da colocação da Base em Mocímboa da Praia, também não houve uma escolha criteriosa do terreno  e o aquartelamento foi edificado sobre um antigo cemitério indígena. Ao longo de todas as expedições nunca houve um cuidado especial na construção de infra-estruturas, fossem para armazenagem, transporte de água ou esgotos.  Em particular as estruturas sanitárias dos acampamentos, latrinas e fossas, revelaram-se ineficazes, também por falta de disciplina dos militares que preferiam fazer as suas necessidades e despejar lixo junto às suas tendas em vez de as utilizar, contribuindo para o aparecimento de moscas, mosquitos e ratazanas.  


Serviço de Administração Militar


Gestão da distribuição e mantimentos para a alimentação de europeus, indígenas e solípedes, fora da Base era um problema logístico.  Para além do problema de armazenagem por causa do clima, os serviços administrativos tiveram de ultrapassar do transporte de material. Por falta de conhecimento do teatro de guerra em Moçambique, os volumes acondicionados com produtos alimentares em Lisboa tendiam a ter uma tara superior a 30Kg, o que impedia posteriormente o seu transporte por carregadores indígenas.  


Para as tropas indígenas o abastecimento tinha origem local, assim como o fardamento provinha de depósitos da colónia. Teria sido por falta de fardamento que após a implantação da República, em 1910,  se teria optado por extinguir as companhias indígenas cuja importância era fulcral naquele clima.


As dificuldades dos serviços para abastecimento as tropas verificava-se logo à partida desde Lisboa, não só na questão dos mantimentos, mas também  no fornecimento de munições e muito em especial no abastecimento de medicamentos adequados para o tratamento de doenças tropicais e vacinas. Em Moçambique a gestão das Bases apresentava falhas graves de limpeza e arrumação, mas talvez derivado da doutrina da época que era contra o incentivo de melhorar as condições dos acampamentos, aspecto e conforto, por se estar convicto que tal motivava a desmoralizaria as tropas.



Forno de pão tipo Manfred Weiss 1904

Foto: PT AHM-FE-110–D8-PQ-3


1ª Força Expedicionária a Moçambique – Agosto de 1914


Em 18 de Agosto de 1914 deu-se início a um conjunto de quatro expedições militares enviadas a Moçambique. A primeira de  1.539 homens era composta por: 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 15 (Tomar), 4.ª Bataria do Regimento de Artilharia de Montanha (Évora), 4.º Esquadrão de Cavalaria n.º 10 (Vila Viçosa), Secção de Engenharia Militar (Lisboa), Serviço de Saúde Militar (Lisboa), Serviço de Administração Militar (Lisboa)


Ao chegarem a Porto  Amélia, a 1 de Novembro, encontraram  um território sem quaisquer infra-estruturas capazes de albergar um força militar europeia.  Mantiveram-se aquartelados em Porto Amélia  até que em 15 de Junho de 1915, quando receberam ordens para marchar sobre Quionga.


O Comandante da expedição considerou impossível cumprir a ordem por ter perdido mais de 20% do total dos seus  homens por doença, sem estes terem saído da cidade.  


O relatório do Tenente-coronel Massano de Amorim sobre a acção da 1º Força Expedicionária a Moçambique, descreve em pormenor as características da situação logística em Porto Amélia e dos materiais de construção utilizados, dos quais se destaca a utilização inapropriada de chapas de zinco para cobertura de depósitos e barracões.


Tenente-coronel Pedro Massano de Amorim

18/08/1914 – 5/11/1915


2ª Força Expedicionária a Moçambique – Agosto de 1915


Em 23 de Agosto de 1915 deu-se início à segunda expedição militar enviada a Moçambique. Com um total de 1.558 homens era composta por:  3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 21 (Penamacor), 2.ª Bataria do 7º Grupo de Metralhadoras (Castelo Branco), 5.ª Bataria do Regimento de Artilharia de Montanha (Évora), 4.º Esquadrão do Regimento de Cavalaria n.º 3 (Estremoz), Secção de Engenharia Militar, Serviço de Saúde Militar, Serviço de Administração Militar.


Ao colocar a Base de operações em Palma, por causa do clima, da insalubridade geral, falta de higiene pessoal,  condições sanitárias e insuficiência de cuidados médicos preventivos, a força expedicionária passados 3 meses e sem entrar em combate encontrava-se na sua grande maioria incapacitados para combate por motivo de doença.


Ainda assim, nos finais de Março 1916 foi organizado em Porto Amélia um pequeno destacamento, sob o comando do Major Portugal da Silveira, com uma Companhia do BI 21 (Penamacor), uma Bataria de Artilharia de Montanha (m/82) e um Pelotão de Cavalaria (Dragões de Lourenço Marques), que vieram a ocupar Quionga sem combate e ainda fizeram um reconhecimento ofensivo em direcção de Mikindani, Lindi, em território alemão, também sem perdas por combate.


No final a comissão de serviço da 2ª Expedição ainda em 1916, depois de aproximadamente um ano de serviço em África, somente 300 dos 1.500 homens regressaram vivos a Portugal, o que significa uma perda de 80% dos homens por doença.  


Major Moura Mendes

23/08/1915 – 18/03/1916


3ª Força Expedicionária a Moçambique – Maio de 1916



Em 25 de Maio de 1916 deu-se início à terceira expedição militar enviada a Moçambique. Com um total de 4.836 homens, a maior de todas,  era composta por: 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 23 (Coimbra), 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 24 (Aveiro), 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 28 (Figueira da Foz), Duas Companhias do Regimento de Infantaria n.º 21 (Castelo Branco), 1º e 2º Grupo do Regimento de Artilharia de Campanha (Évora), 1ª Bataria do 4.º Grupo de Metralhadoras (Estremoz), 1ª Bataria do 5.º Grupo de Metralhadoras (Coimbra), 2ª Bateria do 8.º Grupo de Metralhadoras (Valença), uma Companhia Mista de Engenharia (Lisboa), uma Secção de Telegrafia Sem Fios, Serviço de Saúde Militar (hospital provisório), Missão da CVP (ambulância), Serviço de Veterinária Militar, e Serviço de Administração Militar (uma companhia de automóveis, padaria móvel). Foram ainda enviados 432 praças do BI 21 (Coimbra) como pena por insubordinação.



Com o conhecimento dos graves problemas logísticos verificados com as anteriores duas expedições, os Serviços Administrativos Militares em Lisboa solicitaram a construção de armazéns com uma área superior a 1.000 metros, em Palma, mas mesmo assim estes  só foram concretizados após a chegada das tropas e recorrendo a materiais reutilizados e diversos trazidos de Porto Amélia.


Com uma concentração de mais de 5.000 tropas europeias em Palma e sem uma doutrina de logística e administrativa adequada, a vida na Base, acantonamentos e bivaques continuou a representar a situação anteriormente experimentada, como patenteou o Dr. Pires de Lima.


A 3ª Expedição corresponde à fase mais activa do Exército português em Moçambique, com os combates de Mahuta, Nevala, Kiwambo e avanço e ocupação alemã do posto de Mitomoni, e em poucas semanas a ocupação da região periférica: Mataca, Metarica, Serra Mecula, Mwembe, Mluluca, Maúa e Mandimba. Sendo assim o período em que se verificou a concentração de mortes por combate.

General Ferreira Gil

25/05/1916 – 04/01/1917


4ª Força Expedicionária a Moçambique – Setembro de 1917


Em 12 de Setembro de 1917 deu-se início à quarta e última expedição militar enviada a Moçambique. Com um total de 5.257 homens, contando com a força europeia colonial e efectivos não repatriados , era composta por: 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 29 (Braga), 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 30 (Bragança), 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria n.º 31 (Porto), uma Companhia de Engenharia (Lisboa), duas Batarias de Artilharia de Montanha (Évora), duas Batarias de metralhadoras, Serviço de Saúde Militar e Serviço de Administração Militar.


Ao longo do ano de 1918, a 4ª Expedição foi recebendo o reforço de 5.509 homens, que já tinham participado nas expedições anteriores e que entretanto foram sendo enviados novamente para Moçambique, e ainda recebeu quadros para organizar 20 companhias indígenas, um esquadrão de cavalaria e uma esquadrilha de aviação (3 aviões monomotores Farman).


O caso de mortes por doença mais surpreendente ocorreu com o BI 31 (Porto), que por causa do comando não compreender o clima do teatro de operações e ter colocado a unidade acantonada junto a um pântano, levou ao aniquilamento total do batalhão como força de combate por causa das doenças, sem este ter saído alguma vez da Base marítima de Mocímboa da Praia.


O período da 4ª Expedição coincide com a fase da 2ª evasão alemã a Moçambique, de onde se destacam os combates de Negomano, Serra Mecula, e por último já em 1918 Nhamacurra.

Coronel Sousa Rosa

12/09/1917 – 11/11/1918


O Verdadeiro Inimigo – A Doença

Mortos durante a Campanha de Moçambique  1914-1918

Nota: 16+28 significa 16 oficiais + 28 praças (Fonte: Ministério das Colónias, em 1933)

Outras fontes apresentam outros números, mas as proporções são idênticas


Este resultado demonstrou a inadaptação do Serviço de Saúde Militar ao teatro de guerra colonial.  O rácio entre mortes por doença e por ferimentos de guerra, no período de 1914-1918, foi de 44:1, o que é 100 vezes superior ao mesmo rácio para os serviços de saúde militar britânicos, no mesmo teatro de guerra e no mesmo período.  


A grande maioria das doenças que vitimaram os soldados europeus esteve relacionado com problemas de aclimatação ao meio ambiente tropical. Doenças do tipo respiratório, intestinais e infecto-contagiosas foram multiplicadas pelas más condições higiénicas e alimentares, para além das que são tipicamente tropicais.


Muitos dos casos fatais foram consequência de doenças da pele por incidência dos raios solares, otites derivadas das alterações bruscas de temperatura e da pulga africana (matacanha) que se infiltrava na pele pelos pés.

Os Serviços Médicos Militares Britânicos em Campanha

Os primeiros médicos em campanha terão sido introduzidos em 1812 no Exército de Wellington, durante a Guerra Peninsular (1808-1814), mas foi a partir da Guerra da Crimeia (1854-1856) que se poderá considerar o aparecimento do serviço de saúde militar formal no exército britânico.


Na guerra da Crimeia o serviço médico militar foi um desastre, tanto no tratamento de feridos como de doentes. A água não era potável, e as condições de acantonamento não era higiénicas, propiciando o desenvolvimento e fácil transmissão de germes. Morreram cinco vezes mais tropas por doença do que por combate, tendo as principais doenças sido: Tifo, Cólera e Escorbuto.

Na Guerra Boer (1899-1902) as tropas britânicas registaram 64% de mortes por doença e 34% por feridos em combate. Durante a Grande Guerra fosse qual fosse o teatro de operações os médicos tiveram de lidar com as duas situação: feridas e doenças. A evolução dos serviços médicos prestados e a organização dos mesmos permitiu que na primeira vez na história militar se invertesse o rácio de morte por doença versus combate, mesmo considerando a existência de um solo extremamente contaminado pela utilização agrícola e  humana nas trincheiras (Europa), com o perigo latente de infecção por tétano e tifo, e em África (doenças tropicais) onde se verificou o dobro do rácio da Europa, mas conseguiram em 16 anos uma redução enorme, mesmo considerando que parte do teatro de operações britânico foi na África Oriental Alemã (Tanzânia), de clima tropical.

Conclusão

Num ambiente  onde o clima é hostil por natureza , a capacidade operacional das forças de combate resulta muito para além da capacidade  individual das unidades militares  em conflito. Nestes ambientes, como se verificou em Moçambique, a incapacidade  dos serviços de retaguarda  foi determinante no resultado das as opções militares tomadas.


Serviço de Engenharia Militar – Objectivo: preparar as condições  de sobrevivência


A criação de infra-estruturas é a sua atribuição mais importância num campo de batalha, sendo que as estruturas sanitárias: fornecimento de água, evacuação de esgotos, escoamentos de lixo, etc., quando realizadas convenientemente são uma mais-valia não só para a saúde dos soldados como também para o seu moral e bem-estar. A incapacidade para encontrar soluções neste âmbito demonstrou a falta de conhecimento especializado  para operar num clima tropical, tendo contribuído pela ineficiência demonstrada largamente para a existência de mortes por doença.


Serviço de Administração Militar – Objectivo: manter as condições de sobrevivência


A manutenção do abastecimento  é a sua principal atribuição , mas foi descorada por insuficiência de meios materiais e humanos, não concretizando  os reabastecimentos  por falta de transporte ou por falta dos mesmos. Com uma dependência directa do material enviado pela metrópole e cujas condições de degradação eram por vezes avançadas, também  não contribuía para a preservação dos abastecimentos  as condições com que os armazenavam nos depósitos em Moçambique, ficando amontoados ao longo dos portos de desembarque ao dispor do clima.  


As falhas observadas na estruturação de linhas de abastecimento  (linhas de etapas)  também provocou situações de escassez de abastecimento ocasional, que contribuiu para  desmoralização  das tropas. Esta escassez  era sentida elos soldados como um castigo propositado do Comandante da Expedição pelos fracos resultados da campanha  militar.  


Serviço de Saúde Militar – Objectivo: recuperar as condições de sobrevivência


O apoio médico e a qualidade do mesmo são o melhor padrão para medir a preparação e a competência de um corpo expedicionário, como referido pelo Dr. Pires de Lima, em 1933. Esta verdade intemporal levou a reconhecer que o corpo médico, integrado ou comparado no corpo de oficiais, viesse a reconhecer a necessidade de graduar estes especialistas com a patente de oficial necessária e suficiente para a tomada de decisões no campo da prescrição de higiene geral, corporal e vestuário, especialmente da alimentação e habitação.


No caso das campanhas em África era necessário impor uma higiene tropical específica em benefício e defesa dos expedicionários, favorecendo de forma preventiva a luta contra os agentes de doenças, num clima onde se acentua o desenvolvimento de germes de doenças endemo-epidémicas.



Por último:


Independentemente da estratégia militar portuguesa em Moçambique durante a Grande Guerra, a incapacidade dos serviços de engenharia, administrativos e médicos determinaram a incapacidade operacional de qualquer unidade militar;


Com 12,5% de mortos em Moçambique (0,13% na Flandres), sendo que destes 98% foram por doença, a existência de confrontos com as tropas alemãs foi irrelevante para o desfecho da intervenção do exército metropolitano em Moçambique durante a Grande Guerra;     


O desastre sanitário verificado em qualquer uma das quatro forças expedicionárias conduziu irremediavelmente ao desastre

militar observado.

Serviços Médicos Militares

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Comunicação apresentada no 2º Congress Tropical Medicine and Global Health in the Nineteenth and Twentieth Centuries


14 de Outubro de 2015, Campus do Monte de Caparica, FCT-UNL, Lisboa