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O combate de Muíte 1918

Os combates de Muíte ficaram esquecidos da história quando em 23 de Março de 1919 não se incluiu uma referência a estes acontecimentos militares da Grande Guerra em território nacional de Moçambique. Esse projecto de padrão da autoria do Capitão Anjos da Arma de Engenharia, em forma de oblisco, incluiu somente a seguinte legenda na face da frente - Namaca, Mazíua, Kiwango e Negomano; na face da retaguarda - Mecula, Necuba, Oízulo Montepuez e Nhamacurra, na face direita - Mecula e na face esquerda - Nevala. (Capitão J. Anjos, "O Monumento de Mocímboa da Praia", in Revista Militar, n.º 1 de Janeiro de 1921, pp. 41 e seguintes.)


O monumento de Mocímboa da Praia não relembra vitórias mas relembra combates travados contra os alemães em Moçambique. Ficou a faltar a referência aos combates de Muíte, o que só foi rectificado 11 anos mais tarde quando o Administrador José de Castro, da Circunscrição de Imala, inaugurou em 17 de Julho 1930 um monumento aos mortos dos combates de Muíte, em Muecate. 


O Avanço Alemão


Depois da vitória de Negomano o comandante alemão Lettow Worbeck subdividiu as suas forças em vários destacamentos, não só para imprimir mais mobilidade, mas também para fazer face à necessidade de abastecimento dos seus homens.


Assim as forças alemãs que continuaram junto ao rio Lugenda em direcção a Sul, subdividiram-se novamente a 2 de Dezembro de 1917 após alcançar Nanguar, tendo parte continuado ao longo do rio e parte se dirigido em direcção a Montepuez onde se deram combates a 7 de Dezembro 1917.


As forças alemãs chegam então a 21 de Dezembro de 1917 à margem esquerda do rio Lúrio, em frente a Muíte. Dá-se o primeiro combate de Muíte nesse dia. Alguns dias mais tarde dá-se o segundo combate a 7 de Janeiro de 1918.


1º Combate de Muíte, (21 de Dezembro de 1917)


As tropas alemãs avançavam desde que atravessaram o rio Rovuma em direcção a Sul. Demonstrando uma grande capacidade ofensiva mantinham a capacidade de iludir a forças portuguesas e britânicas que se encontravam em Moçambique, desconhecendo-se quase sempre onde se situava o núcleo principal das tropas alemãs.


No dia 21 de Dezembro de 1917, a 17ª companhia de Campo alemã do destacamento do Capitão Otto, ocupou o posto de Meripo, perto do rio Lúrio, que tinha já sido abandonado no dia 20 quando a patrulha portuguesa identificou o avanço alemão. Deste local o Capitão Otto fez avançar uma patrulha que atravessou o rio Lúrio e atacou o posto de Muíte (Bessa, 1986:156).


Em Muíte encontrava-se um destacamento de 30 praças sob o comando do Tenente Calixto Aníbal, que retirou no dia seguite para o posto de Mecubúri. No processo de averiguação aos factos acontecidos naquele dia pelo Tenente-coronel José Augusto da Cunha, inspector dos comandos militares do Distrito de Moçambique, ficou descrito no contraditório que a força portuguesa só retirou depois de identificar a superioridade do inimigo, a qual foi presenciada no decorrer do combate.


Tacticamente o Capitão Calixto Aníbal decidiu que era impossível retirar por lanços, uma vez que a sua força era diminuta, o que levou a deixar uma pequena a combater, uma secção comandadas por um sargento e um 1º cabo europeus. Ainda ficaram associados a essa "secção" mais dois sargentos europeus, o comandante do posto de Muíte e do posto de Nanripo, da Compamhia do Naissa e mais alguns poucos cipais da Companhia do Niassa. A retirada foi executada à voz de comando do Capitão Calixto Aníbal que retirou na direcção do prolongamento dos combates, tendo seguido em direção à estrada que ligava Muíte a Mecubúri.


Assim que começou a reunir as tropas indígenas que se lhe iam juntando, teve consciência que o estado de moral impossibilitava utiliza-los em qualquer acção militar sobre as forças inimigas. Os três sargentos que mantiveram o contacto com o inimigo, para assegurar a retirada do material de guerra e fundos em ouro e prata dos postos de Nanripo e Muíte, também chegaram a Mecubúri poucos dias depois (Bessa, 1986:157-9).


2º Combate de Muíte, (7 de Janeiro de 1918)


Com a presença de alemães no Distrito de Moçambique, o Governador Major José Ricardo Pereira Cabral solicitou ao Coronel Sousa Rosa, comandante da Força Expedicionária, o comando militar das operações que lhe foi concedido. Assim foi reorganizada a defesa e incumbindo o Tenente Aníbal Bessa, comandante do posto de Itoculo de exercer em acumulação o comando do posto de Imala, tendo para isso recebido de Nampula um pelotão da 5ª Companhia Indígena de Infantaria e mais 100 Auxiliares, sob o comando de Tenente Eduardo de Sousa e um grupo de 140 Auxiliares de Nampula comandados pelo Alferes Jerónimo Lobo de Almada Negreiros. 


Apesar dos Auxiliares não combaterem normalmente em formação com os regulares, a coluna do Tenente Aníbal Bessa levou a formação organizada convencionalmente desde Mecubúri até Muíte, tendo decidido que todas as tropas se mantivessem integradas quando chegou a Muíte a 6 de Janeiro de 1918.


Desde a saída de Mecubúri que a forças portuguesas eram protegidas por uma flecha de pequenos grupos de cipais que mantinham a exploração do terreno e obtinham informações. Os alemães tinham retirado de Muíte e acampado perto na margem Norte do rio Lúrio, tão perto que se ouviam os tiros de caça.


A posição do posto de Muíte foi reforçada pela construção de uma trincheira e pela ocupação de um morro que existia nas proximidades.


No dia seguinte, uma pequena força exploratória formada por um pelotão de Auxiliares comandada pelo Alferes Almada Negreiros tomou uma posição defensiva forte em quadrado junto da água. entretanto os alemães aproximaram-se e deu-se início a um fortíssimo tiroteio. O pelotão de Auxiliares manteve o fogo durante algum tempo, mas após a morte do Alferes Almada Negreiros e pela pressão de uma força inimiga da ordem de uma companhia, abandonaram a posição e retiraram precipitadamente. O tenente Sousa Dias ainda tentou conte-los mas não foi possível. 


O reduto com os 150 Auxiliares do Tenente Aníbal Bessa, mantinha-se em posição apesar de atacado violentamente por três dos lados. As tropas portuguesas mantinham-se agarradas ao terreno mas com dificuldade de oficiais, o que levou que na face da frente do quadrado ficasse a comandar o 2º Sargento Hilário Barreiros, na esquerda um cabo e na direita um soldado ambos europeus. Na retaguarda estava o Alferes Augusto Henriques e para além deste só havia mais um soldado europeu que estava a comandar o municiamento da linha de fogo.


O comandante da força, o Tenente Aníbal Bessa, mantinha-se na face da frente do quadrado, mas foi avisado pelo 2º Sargento Hilário Barreiros que os alemães estavam a preparar um ataque vindo de uma posição atrás de um morro poucos metros à frente. Foi quando decidiu ir à retaguarda chamar o Alferes Henriques e as suas forças para a frente do quadrado, de modo a suster o ataque alemão, que os auxiliares ao verem o comandante a deslocar-se par a retaguarda desguarneceram os flancos e iniciaram uma fuga.


O Tenente Aníbal Bessa mais cinco europeus e quatro indígenas ficaram sozinhos no posto de Muíte e não tiveram qualquer outra possibilidade que também retirar.Na realidade as forças portuguesas eram muito inferires às alemãs, uma vez que a 5ª Companhia Indígena Portuguesa, constituída por 15 europeus e 200 landins e alguns ruga-ruga (carregadores), (Bessa, 1986:170-3).


Baixas de combate


Portugueses: 3 europeus e 21 landins mortos e 1 europeu e 3 landins feridos. Houve ainda um prisioneiro europeu, o Sargento Mário Augusto Pires.

 

 

Links

 

Triplov - MOÇAMBIQUE NA 1ª GUERRA MUNDIAL - DO ROVUMA AO NHAMACURRA

 


Bibliografia


BESSA, Carlos – O COMBATE DE MUÍTE: ASPECTOS RELACIONADOS COM A PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NA GUERRA DE 1914-18 EM MOÇAMBIQUE. Pelo académico correspondenteSeparata dos «Anais» : II série, vol. 31. Lisboa, cademia Portuguesa de História, 1986. In-4º (24,5cm) de 142 p. (p. 135-270)