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Macau na Grande Guerra

Bibliografia


Comissão dos Padrões da Grande Guerra, Relatório Geral da Comissão (1921-1936), Lisboa, C.P.G.G., 1936; Relatórios de Gerências da Liga dos Combatentes da Grande Guerra; Relatórios da Junta Patriótica do Norte.

Bibliografia


CORREIA, Sílvia, Políticas da memória da I Guerra Mundial em Portugal 1918-1933: entre a experiência e o mito, Tese de Doutoramento, Lisboa, FCSH-UNL, 2010, Anexo XXII (policopiado).


Jornal Tribuna de Macau, 24 de Novembro de 2014, artigo de João Botas "Marcas" da Primeira Grande Guerra, https://jtm.com.mo/opiniao/marcas-da-primeira-grande-guerra/  (consultado em 2018/98/16).




No final do século XIX o arquiduque austríaco Franz Ferdinand foi aconselhado pelo seu médico a mudar de ares e a viver algum tempo junto ao mar. Os problemas nos pulmões levaram-no numa volta ao mundo tendo passado por Macau em 1893.


Reza a história que durante uma recepção feito pelo governador (Custódio Miguel de Borja) este perguntou ao ilustre visitante o que mais gostaria de fazer no território ao que este respondeu que adoraria assistir a uma ópera. O governador terá hesitado por alguns momentos mas pouco depois sugeriu uma visita ao Largo do Pagode da Barra onde estava em cena uma ópera cantonense intitulada ”Six countries conferred a Prime Minister”.


Ao que parece o arquiduque não só percebeu a história (teve um tradutor ao seu lado durante a actuação) como gostou muito tendo dito até que por certo nunca mais iria ter uma oportunidade como aquela. De facto, 21 anos depois, do dia 28 de Junho de 1914, Francisco Ferdinando (herdeiro do trono austríaco) e a sua mulher, Sofia Chotek, seriam mortos num atentado na capital da província austríaca da Bósnia-Herzegovina.


O episódio – que se soube logo no dia seguinte em Macau através dos serviços consulares do Império Austro-Húngaro de Hong Kong – desencadearia a “Primeira Grande Guerra”, conflito que foi de facto a primeira guerra mundial. Depois dele, o mundo mudou. Acabaram impérios, surgiram novos países…

Este ano celebra-se o centenário do início do primeiro conflito bélico à escala mundial e que causou 16 milhões de mortos.


Portugal começou por reagir à nova ordem mundial defendendo as então colónias em África, Angola e Moçambique, ameaçadas pelo exército alemão. A decisão portuguesa é publicada oficialmente em Novembro de 1914 mas só o seria no Boletim Oficial de Macau nº 5 (30 Janeiro de 1915).


No texto expressa-se a autorização do Congresso da República dada ao governo português para intervir militarmente ao lado da aliada Inglaterra. Poucos meses depois do início do conflito, em Outubro o governador Carlos da Maia informa o ministro das Colónias sobre as condições de segurança, do ponto de vista militar, em que se encontrava o território.


Em 1916 entra definitivamente no conflito com o denominado Corpo Expedicionário Português responsável pelo recrutamento numa primeira fase de 30 mil soldados que viriam a ser estacionados na Flandres. Entre eles estava Lara Reis que viria a destacar-se em Macau como professor e forte impulsionador da vida cultural e artística do território nas década de 1920 e 1930. Mas do Corpo Expedicionário fizeram parte muitos soldados oriundos de Macau. A 12 de Agosto de 1914 pela Portaria nº 203 foi determinada a constituição provisória do Corpo de Voluntários de Macau. A 31 de Março de 1916 são convocadas as companhias do Corpo de Voluntários para prestarem serviço militar “em virtude da guerra com a Alemanha”.


No final da guerra estima-se que entre sete a 10 mil portugueses morreram nas trincheiras europeias, uma boa parte na Batalha de La Lys (9 de Abril de 1918).

Macau escapou à guerra de forma incólume mas não indiferente (por via da participação portuguesa) e ainda existem “marcas” que assinalam esses quatro anos mortíferos. Curiosamente, e ao contrário do que é comum encontrar-se nos registos toponímicos um pouco por todo o mundo, julgo que no território não existe nenhum exemplo.


As quermesses para angariar dinheiro e o envio de roupa para os combatentes foi motivo de notícia na imprensa publicada em Macau e Portugal naqueles anos. Logo a 15 de Janeiro de 1915 realiza-se a primeira “quermesse para angariar fundos”.


Na edição de 22 de Março de 1915 a revista Ilustração Portuguesa apresenta duas fotografias que testemunham o contributo macaense. Na primeira imagem “grupo da sociedade elegante de Macau vendo-se entre ela as senhoras que angariaram donativos a favor dos feridos da guerra”. Na segunda imagem apresenta-se a “formatura de voluntários portugueses em Macau por ocasião do movimento patriótico em favor dos nossos soldados expedicionários”. São cerca de 200 elementos, todos fardados e armados.


Na edição de 10 de Maio de 1915 apresenta uma fotografia com a seguinte legenda: “Comissão de senhoras trabalhando – no Palácio do Governo – na confecção dos artigos de agasalho destinados aos feridos da 1ª Guerra Mundial”.


Em 1917 há registo da oferta de um subsídio de 100 mil libras “oferecido à metrópole por Macau para os serviços hospitalares dos feridos de guerra e para as famílias dos mobilizados” e o envio de “objectos destinados aos soldados portugueses em campanha”. Em Janeiro de 1918 o governo de Hong Kong emite um aviso sobre a existência de bombas explosivas alemãs, camufladas, em latadas de conservas de diversos tamanhos.


Em termos de património edificado que evoca a Primeira Guerra Mundial existe o ossário no cemitério de S. Miguel e o torreão no Jardim de S. Francisco a recordar esses fatídicos anos.


Em relação a estes dois últimos há um nome que se destaca. Fernando Lara Reis, professor do Liceu e antigo combatente na 1ª guerra mundial. Em 1917, tenente e adido à recém formada estrutura da aviação militar, parte para França, integrando o Corpo Expedicionário Português. Sofre um acidente com o avião militar sendo internado no Hospital Militar de Paris. As lesões sofridas incapacitam-no para o serviço activo. É promovido a Capitão e passa à reserva em 1918. No ano seguinte chega a Macau e é aqui que vai viver até à sua morte em 1950.


O ossário–monumento dos Combatentes da Grande Guerra  (de Macau) no Cemitério de S. Miguel foi inaugurado em Abril de 1938. Os restos mortais de Lara Reis foram para lá trasladados em 1954.


Já o torreão foi inaugurado em Abril de 1934, servindo primeiro como casa de arrecadação do material da Repartição Técnica das Obras Públicas no Jardim de S. Francisco. Em 1938 sofreu obras para albergar a sede da Liga dos Combatentes da Grande Guerra (fundada em Portugal em 1923), sendo Lara Reis o fundador em Macau.


A inauguração ocorreu a 9 de Abril de 1939. Aquela parte do jardim chamava-se “Jardim dos Combatentes da Grande Guerra 1914-18”. Tudo isto pode ser verificado in loco.


Após o falecimento de Lara Reis, o seu principal impulsionador, a sede da Liga “viu-se transformada em sapataria, depois alfaiataria, a seguir em Estação Postal Militar”. Estes serviços estavam todos na dependência dos militares. A Estação Postal Militar 3 foi inaugurada em Fevereiro de 1963 e encerrada em Outubro de 1974. Na década de 1980 serviu de sede à Associação Recreativa dos Deficientes de Macau.



NOTAS:


1 - Lara Reis deixou outras “marcas” na história de Macau mas isso terá de ficar para uma próxima oportunidade.


2- Numa das imagens pode ver-se três soldados portugueses fotografados na Gruta de Camões em 1906. Pelo menos um deles no final da comissão militar em Macau regressou a Portugal e depois partiu para a guerra em França.


Artigo de João Botas (Jornalista), 2014