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A Madeira na Grande Guerra

Após a retirada do Atlantic Squadron inglês da Madeira em Junho de 1915, para São Vicente, em Cabo Verde, por causa do maior alcance dos submarinos alemães e pela inexistência de redes anti-torpedo no porto do Funchal, aliás nenhum porto nacional estava equipado com este tipo de redes, a defesa marítima da Ilha da Madeira ficou somente a cargo do capitão do porto do Funchal, o Capitão-de-fragata Sales Henriques (Mendes, 2002: 270).


Os meios permanentes de defesa territorial encontravam-se limitados a 3 navios patrulhas: "NRP Dory", "NRP Dekade I" e "NRP Mariano de Carvalho", iates requisitados e armados, cada um com uma peça em caça de 47mm, , e um gasolina armado com um canhão-revólver. As guarnições destas embarcações eram mistas, parte civis, parte praças da Armada. Para este serviço a defesa naval do Funchal contava com um destacamento de 20 praças.

A Baía do Funchal apresentava excelentes condições para receber navios em tempo de paz, os quais podiam fazer a aproximação ao porto sem a necessidade de piloto, no entanto, a baía sofria de ventos muito fortes e estava completamente desprovida de um porto de abrigo, absolutamente necessário num contexto de guerra. Estas condições naturais e a falta de infra-estruturas impediram o estabelecimento de uma base naval, apesar do valor estratégico  da ilha no contexto das rotas atlânticas.


A protecção militar da baía era efectuada em terra por duas baterias de costa, uma situada no Forte de São Tiago e outra na Quinta da Vigia. Por causa dos ataques alemães de 1916, a defesa do Funchal foi reforçada com mais uma bataria colocada na Montanha no ano de 1917. Foram também construídas trincheiras de defesa na Ribeira Brava e em São Vicente.


Baía do Funchal

1916 - 1º Ataque Alemão à Ilha da Madeira

Entre outros navios, encontrava-se na baía do Funchal o "Surprise", o "Kangoroo" e o "Dacia". O "Dacia" era um navio de lançamento de cabos submarinos que se encontrava a trabalhar na área compreendida entre Casa Blanca e Dakar. Os outros dois navios tinham a função de auxiliar e de escolta.


A 3 de Dezembro de 1916 aconteceu o primeiro ataque à Ilha da Madeira, através de um torpedeamento de navios fundeados na baía do Funchal e de um bombardeamento à cidade. Os prejuízos matérias e humanos foram elevados, saldando-se no afundamento de quatro navios, a canhoneira francesa "Surprise" de 680 toneladas, o porta-submarinos francês "Kanguroo" de 2.493 toneladas pertencente à casa Scheneider, o lança cabo submarino inglês "Dacia" de 1.856 toneladas e a barcaça portuguesa que estava a abastecer o "Surprise" de carvão. Neste ataque morreram 33 membros das tripulações estrangeiras e 8 portugueses que trabalhavam na empresa Blandy que detinha o negócio do carvão.


O ataque alemão teve início às 8:30 horas da manhã com o torpedeamento dos três navios das forças aliadas e uma barcaça de transporte de carvão, respectivamente, por ordem de torpedeamento, a "Surprise", a barcaça, o "Kanguroo" e o "Dacia", quando estes se encontravam ancorados no Porto do Funchal.


O torpedo que atingiu o "Surprise" acertou-lhe a meia nau, na altura do paiol de munições, partindo-o ao meio e fazendo-o submergir em menos de um minuto, causando a morte do comandante Capitão Ladonne, outros dois oficiais, Carvallo e Blic, e 26 outros membros da tripulação. A barcaça que se encontrava amarrada à canhoneira também se afundou, tendo morrido oito homens e ficado feridos quatro que se encontravam a carregar carvão na "Surprise". Existe uma bóia de salvação da canhoneira no museu da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, peça de inventário n.º 479.


O "Kanguroo", que se encontrava fundeado na baía do Funchal desde 24 de Novembro de 1916 para reparações, fez fogo com uma peça de proa de 65mm, manobrada pelo próprio comandante da "Kanguroo", tendo disparado 25 tiros sobre o submarino até o navio se afundar por completo. Existe uma bóia de salvação da canhoneira no museu da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, peça de inventário n.º 480.


O "Dacia" tinha acabado de chegar ao porto do Funchal, escoltado pela "Surprise" pelo que se deduz que o submarino terá vindo em perseguição destes dois navios, uma vez que a "Surprise" e o "Dacia" tinham chegado ao porto meia hora antes do início do ataque. O "Dacia" foi torpedeado depois do "Kanguroo", mas afundou-se antes deste. Neste navio não houve perdas pessoais, porque alertados pelos torpedeamentos anteriores abandonaram o navio. Existe uma bóia de salvação da canhoneira no museu da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, peça de inventário n.º 481. Na baia também estava presente o iate americano Eleanor A. Percy, que ficou ileso (Islanha, 01-06/2011: 98).


O submarino executou um bombardeamento à cidade, com cerca de 50 disparos foi feito à distância de cerca de 2 milhas e que  durou até às 11 horas. Os alvos foram a Bateria de artilharia que se encontrava no parque do Casino da Quinta da Vigia,  a Bateria de artilharia do Forte de São Tiago, a Estação do Cabo Submarino e os geradores de electricidade. Algumas das granadas atingiram a casa Blandy, a residência Perestrelo, o coreto do Jardim Municipal e uma casa de bordados, não tendo causado vitimas para além das causada no porto (Ilustração Portuguesa, 1916: n.º 564, p. 465).


"SS Dacia antes da explosão 3-12-[1]916."

"SS Dacia no momento da explosão 3-12-[1]916."

"SS Dacia depois da explosão 3-12-[1]916."

"SS Dacia 3-12-[1]916 Madeira"

Durante o ataque as baterias de artilharia de terra ripostaram logo após o "Kanguroo" ter sido torpedeado, tendo sido disparados da Bateria do Forte de São Tiago 18 tiros e da Bateria do parque do Casino da Quinta da Vigia 34 tiros, nenhum deles tendo atingindo o submarino, por este se encontrar fora do alcance das suas armas. Submarino alemão U38 que atacou os navios e a cidade era comandado por Max Valentiner e estava equipado com um canhão de 105mm, quatro tubos lança torpedos e seis torpedos (Museu de Artilharia de Costa).

Canhoneira francesa "La Surprise". Afundada na Baía do Funchal a 3 de Dezembro de 1916, pelo U-38


Porta-submarinos francês "Kangoroo". Afundado na Baía do Funchal a 3 de Dezembro de 1916, pelo U38


A canhoneira francesa "La Surprise", construída em 1896, deslocava 680 toneladas, com duas hélices movidas por duas máquinas a vapor de 900Cv cada. Tinha uma velocidade máxima de 13 nós. Estava armada com 2 canhões de 100mm, 4 canhões de 65mm e 4 canhões de 37mm.  A guarnição compunha-se de 96 homens (Islanha, 01-06/2011: 102)


Mais tarde o Capitão-de-mar-e-guerra Artur Leonel Barbosa Carmona, à data capitão do porto do Funchal, ofereceu ao museu da Liga dos Combatentes da Grande Guerra a cauda do torpedo que afundou a canhoneira francesa "Surprise", peça de inventário n.º 545. Esta foi retirada em conjunto com alguns outros destroços do "Surprise" quando cinco meses mais tarde se fizeram trabalhos de levantamento de destroços dos navios afundados: "Surprise", "Kanguroo" e "Dacia".


Cauda do torpedo alemão que afundou a canhoneira francesa "Surprise", em 3 de Dezembro de 1916, na Baía do Funchal.

Catálogo, n.º 545, Museu LCGG, Lisboa

Bóias dos navios afundados "SURPRISE", KANGUROO" e "DACIA", em 3 de Dezembro de 1916, na Baía do Funchal.

Catálogo, n.º 479, Museu LCGG, Lisboa

Na cidade do Funchal instalou-se o pânico. Muitas famílias abandoaram as suas casas dirigindo-se para os subúrbios do Funchal, Monte, S.Roque, s.Martinho, Santo António, Caminho do Palheiro, etc.. Outros ficaram porque não quiseram abandonar os seus bens a possíveis pilhagens, ou porque tinham familiares doentes e não queriam deixa-los. Receou-se que o submarino voltasse à noite, mas tal não aconteceu. O comércio fechou cedo e durante a noite as ruas foram patrulhadas por unidades do RI-27 e guardas cívicos. Por ordem do comandante do Regimento de Infantaria 27 foi determinado que todas as janelas que estivessem viradas a mar estivessem fechadas durante a noite e impôs um recolher obrigatório depois das 9 horas (Islanha, 01-06/2011: 100).


No semanário funchalense "A Verdade", de 09/12/1916, colocou a questão de onde teria vindo o submarino, tendo sido insinuado que teria vindo das vizinhas ilhas Canárias, ou de outro porto espanhol. Foi também alvitrado se existiriam depósitos de combustível inimigos escondidos nas ilhas Selvagens ou Desertas. Foi ainda colocada a ideia se teria havido algum navio mercante com pavilhão neutro que os tivessem ajudado, que foi o que aconteceu na realidade.


Treze dias depois, a 16 de Dezembro de 1916 o submarino U38 voltou a bombardear o Funchal, não causando qualquer estrago nos navios que se encontravam fundeados na baía, mas causando o pânico entre a população. 


No mesmo dia chegou ao porto do Funchal o Cruzador auxiliar "NRP Gil Eanes" que escoltava o vapor "África" que transportava passageiros com destino a Angola e Moçambique.


A 27 de Dezembro saiu do Tejo o Cruzador auxiliar "NRP Pedro Nunes" com destino ao Funchal, onde chegou a 31 de Dezembro, com um reforço de dois oficiais, seis sargentos, 28 praças e nove peças de artilharia. Foi neste navio que regressaram os náufragos franceses a Lisboa, a 4 de Janeiro de 1917.

O ataque ao Funchal visto pelo Comandante do submarino Max Valentiner

O submarino U38 zarpou da sua base austríaca de Cattaro no mar Adriático, actualmente Kotor no Montenegro.


Do seu livro "La Terreur des Mers: Mes Aventures en Sous-Marin 1914-1918", 1931, Trad. Francesa P. Teillac (Capitão-de-fragata), Capítulo XIV.


Chegámos ao Funchal, a capital da Madeira, um domingo de manhã (Valentiner, 1931: 116-123).


Um grande vapor estava diante a entrada, à espera manifestamente de um piloto. Eu permaneci a uma distância considerável e eu mergulhei quando o dia nasceu. Um barco piloto saiu do porto e conduziu o vapor através do caminho entre a barragem de minas à entrada do porto. Na verdade eu nãull ‹o sabia se existiam minas, mas eu tinha que supor a sua existência. Ao me aproximar do porto eu observei um pouco a paisagem. Eu já a conhecia desde o tempo em que como cadete, em 1902, eu tinha passado horas agradáveis e eu lembro-me bem: à minha esquerda uma rocha íngreme com um forte na cimeira, na encosta íngreme a cidade do Funchal, desde o mar à crista do monte viam-se casas em nichos dentro de jardins, muita verdura, um quadro encantador.


Mas fiquei muito decepcionado com o que vi no porto: esperava encontrar um esquadrão britânico e pensava como eu iria torpedear os oito cruzadores, enviando-os ao fundo e realizando um feito que faria sombra ao próprio Weddigen. Otto Eduard Weddigen, foi o primeiro comandante do submersível U-9. A 22 de Setembro de 1914, enquanto patrulhava a região sul do Mar do Norte, conhecida como "Broad Fourteens", com o U-9 interceptou três vasos de guerra do 7ª Esquadrão de Cruzadores. Weddigen disparou todos os seus seis torpedos e depois submerso recarregou os tubos e voltou a disparar, tendo em menos de uma hora afundado os cruzadores britânicos: HMS Aboukir, HMS Hogue e HMS Cressy. Morreram dois oficiais e 1.397 marinheiros. Só houve 837 sobreviventes.  


Mas no porto não havia mais que um grande seis mastros americano, ao qual eu não tinha direito a fazer nada, porque ele era neutro, e atrás dele um pequeno cruzador francês o Surprise, na verdade uma camnhoneira, depois ao lado deste o vapor que eu tinha visto entrar. Este teria cerca de 6.000 toneladas e chamava-se Dacia. À frente do Dacia encontrava-se o Kanguroo, um navio que servia para transportar submarinos no seu interior. Estes quatro navios estavam dispostos de tal maneira que se os ligássemos por uma linha formavam os quatro vértices de um quadrado.  


Mas antes de chegar eu caí dentro de um grupo de numeroso de pequenos barcos que tinham ancorado ao largo do porto para pescar. Isso incomodou-me. Fiquei com medo de passar junto às cordas das redes e das âncoras e de ficar preso a um dos barcos.  


Foi obrigado a pegar no periscópio para manter a visão e manobrar dentro daquela confusão. Eu passei a menos de dois metros de um desses barcos de pesca. Eu vi de frente um português com a cara bronzeada. Ao mesmo tempo ele via o periscópio. De terror ele ficou de boca aberta e com uma expressão indescritível que eu jamais esquecerei. Então ele começou a chorar e assustou os seus colegas. De seguida os pescadores largaram as amarras e remaram com todas as suas forças para o porto.


Para mim era tempo de agir se não queria ser descoberto no momento final. Aumentei a velocidade e fiz rumo à popa do navio americano. Este navio encobria a Surprise. Todos os torpedos foram preparados.      O submarino U-38, da classe U-31, tinha quatro tubos, dos à proa e dois à ré. Transportava seis torpedos. Era possível prepara quatro torpedos com a inundação dos tubos, os outros dois tinham de ser introduzidos nos tubos após disparo.


Chegado a trás do navio americano, eu pude ver claramente a Surprise. Ela estava a 500 metros de mim. Ao longo do seu costado encontravam-se barcaças de carvão. Ela estava ocupada a carregar diamantes negros. Eu apontei, segurando a mira exactamente sobre o seu meio e carreguei no botão de disparo. O submarino vibrou e o torpedo partiu.


Então eu virei em direcção da Dacia e quis dispara-lhe um torpedo obliquamente pela frente;  mas o ângulo era muito apertado e a distância demasiado curta para fazer a correcção. Eu continuei a rodar lentamente. Então a minha ré ficou exactamente virada para o meio da Dacia. Durante esta viragem de 180 graus, foi produzida uma violenta detonação que soou como música aos meus ouvidos. A Surprise foi atingida em pleno meio, provavelmente nos paióis  de munições, afundando com uma barcaça após a explosão.


O espectáculo foi tão impressionante eu que quase esqueci o Dacia. Eu pressionei de novo o botão de disparo, nova vibração.


A minha posição relativa ao Kanguroo estava tal, ao momento do segundo disparo, que foi obrigado a rodar mais 180 graus. O torpedo alcançou igualmente o Dacia. Enquanto este vapor se afundava, a sua guarnição precipitou-se sobre a peça da ré e começou a disparar sobre o meu periscópio.


Mas tudo isso não serviu de nada a minha proa estava já dirigida para o meio do Kanguroo, lancei então o meu terceiro torpedo. A equipagem do Kanguroo viu chegar o monstro; ordenou o abandono do navio e já se encontravam nos salva-vidas quando o torpedo bateu no meio do navio. O Kanguroo afunda muito rapidamente como os outros dois.  


Depois desses três lançamentos, Wendlandt subiu à cabine e perguntou-me se os navios eram assim verdadeiramente tão grandes e se os disparos iam continuar.  Naturalmente que durante um ataque somente o comandante observa através do periscópio. Todos os outros executam prontamente as ordens do comandante, esperando desde a proa à popa as informações sobre o que se passa. Naturalmente que durante o ataque o comandante tem de concentrar o seu pensamento e a maior parte do tempo não pode satisfazer a curiosidade compreensiva da guarnição.  Infelizmente não existiam mais objectivos para puder responder à pergunta.


Mas entretanto os fortes portugueses que se encontravam repartidos sobre os altos ao longo da cidade apontavam e disparavam cegamente sobre a água. A Dacia ficou afundada a uma profundidade que a plataforma do seu canhão emergia da água e a sua peça continuava a disparar. Mas eu já não tinha mais nada a fazer no porto; Eu saí então pelo caminho que tinha tomado para vir. Então vim à superfície, eu encontrava-me a 7.000 metros da cidade.


Todos os canhões dos fortes recomeçaram a disparar, mas os portugueses não tinham se não velhos canhões. Só um é que poderia chegar perto do U-38, todos os outros disparavam demasiado curto.


Em Pola o U-38 tinha recebido em substituição das suas duas peças de 88mm, uma peça de 105mm. Eu respondi então ao fogo dos fortes, tirando alternativamente obuses perfurantes e explosivos com o fuso regulado de maneira a explodir sobre os fortes.  Uma saraivada de balas se abatia em forma de cone sobre o forte, semeando ao seu redor a destruição.


Eu não disparei mais que alguns tiros após os fortes terem cessado fogo. Eu igualmente silenciei a minha peça. Contudo, lá no alto no forte à esquerda viu-se uma forte explosão. Vimos pedaços de rocha a rolar encosta a baixo até ao mar. Assim o U-38 saiu vitorioso do combate (Valentiner, 1931: 116-119).

1917 - Inauguração do Monumento às Vítimas da Guerra

No ano seguinte, por subscrição pública promovida pelo Banqueiro Henrique Vieira de Castro, foi levantado um monumento aos mortos na manhã de 3 de Dezembro de 1916, no Cemitério de Nossa Senhora das Angústias, São Martinho, Ilha da Madeira, o qual foi inaugurado no dia 3 de Dezembro de 1917. Em 1946 o monumento foi transferido para o Parque de Santa Catarina, onde se encontra actualmente.


No acto inaugural, o monumento encontrava-se envolto nas bandeiras de Portugal, da França e da Grã-Bretanha, em memória do ataque alemão e em homenagem às vítimas dos afundamentos da "Surprise" e da barcaça portuguesa, mortos no porto do Funchal.


A escultura colocada no monumento é da responsabilidade do Escultor Francisco Franco. Nesta observa-se uma grande proximidade plástica com o trabalho de Rodin,  em particular e em comparação com a escultura "L'Enfant Prodigue", pela intensidade dramática e capacidade de síntese formal. A escultura foi fundido no Funchal, Fundições Rua 5 de Junho, em 1917.


O monumento apresenta as seguintes inscrições:


AOS

PORTUGUESES E FRANCESES

MORTOS NA MANHã DE 3 DE DEZEMBRO

1916

fragateiros, na rude, e extenuante lida,

granjeio para os seus,

–esplendente fanal,– eram a luz da vida

acêsa pela esperança e pela mão de deus!

o clarim da manhã cantava na baía,

o crysântemo abria à beira do balsedo …

e coriscou o raio e matou a alegria

a violência, (o fragor,) imortal, de um torpedo!

do 'suave responso'

Jaime Câmara




Fotos de Renè & Peter van der Krogt (2014)

http://www.vanderkrogt.net/statues/object.php?record=ptma098&webpage=ST


1917 - 2º Ataque Alemão à Ilha da Madeira

Alguns dias depois da inauguração do monumento, a 12 de Dezembro de 1917,  a cidade do Funchal foi novamente bombardeada. O ataque iniciou-se às 6h e 20mn e durou cerca de 30mn.


O submarino U-156 bombardeou uma área dispersa da cidade com cerca de 50 tiros para terra e ao contrário do bombardeamento do ano anterior causou a morte de 5 pessoas e ferimentos a 30 outras. Uma das granadas caiu na Igreja de Santa Clara onde feriu o Padre Abel da Silva Branco que se encontrava a celebrar missa. Não se encontra identificado o submarino alemão.


No museu da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, peça de inventário n.º 478, encontra-se um estilhaço de granada disparada pelo submarino alemão nesta ocasião.


1918 - A Promessa à Nossa Senhora do Monte

Era um momento crítico da Grande Guerra, onde havia fome, luto e deslocações na ilha. Na sequência do bombardeamento ao Funchal, em Dezembro de 1917 por um submarino alemão, o povo do Funchal fez a promessa de que se a paz voltasse, os ilhéus ergueriam uma nova estátua em homenagem à Senhora do Monte, o que veio a se construído dez anos mais tarde.


O monumento é neo-romântico assentando num pedestal com quatro colunas romanas e na base um baixo-relevo em bronze retractando a aparição da Virgem aos pastorinhos na Fonte da Telha. A base é envolta por um terço do rosário composto por correntes de navios torpedeados no porto do Funchal e pedras da ribeira de Santo António.

Juntamente com este monumento, no sítio do Terreiro da Luta, foi construído uma Capelinha dedicada à Nossa Senhora da Paz, ou do Ar, padroeira da Aviação Portuguesa, pelo Padre José Marques Jardim, antigo pároco do Monte. No seu interior existe um quadro emoldurado da Senhora, feito com pequenos pedaços de hélices, partidas em desastres da aviação portuguesa.

Chegada do Sr. Bispo do Funchal ao terreiro da Luta. A Missa Campal celebrada pelo Prelado Diocesano D. Manuel António Pereira Ribeiro. Perante as entidades Civis e Militares foi descerrado o Monumento pelo Sr. Governador Civil. A bênção ao Monumento. O Rev. Padre José Marques Jardim, a quem a Madeira deve a iniciativa deste Monumento, lê a Acta de Inauguração. Cortejo de operários transportando para o Memorial da Paz, um terço original, feito com calhaus de ribeira e correntes de amarras dos vapores torpedeados na baía do Funchal, para servir de Memorial dos mortos da Grande Guerra (Cinemateca Nacional).

Monumento aos Combatentes da Grande Guerra - Funchal

Por despacho de de 22 de Outubro de 1935, Sua Exª. o Ministro das Obras Públicas, autorizou do lançamento da primeira pedra para o monumento aos Mortos da Grande Guerra a erigir na futura Avenida Marginal.


Em 11 de Novembro de 1935, foi lançada a primeira pedra do Monumento aos mortos da Primeira Grande Guerra, cujo projecto foi do escultor Francisco Franco. Compareceram à cerimónia, por convite, as autoridades civis e militares, corpo consular, Bispo do Funchal, magistratura judicial, comissões administrativas da Junta Geral e Câmara Municipal e demais entidades oficiais. Nesta mesma data, deslocou-se à cidade do Funchal um delegado da Comissão Central de Lisboa, onde fez entrega do Estandarte à Agência do Funchal. Mais tarde, a Comissão Administrativa, optou pelo projecto de Moreira Rato.


Situado na Avenida do Mar e das Comunidades Madeirenses, frente ao Palácio de São Lourenço, na cidade do Funchal. A primeira pedra do Monumento aos Mortos da Primeira Grande Guerra, foi lançada em 11 de Novembro de 1935, conforme despacho de 22 de Outubro de 1935 de Sua Exª. o Ministro das Obras Públicas, na futura Avenida Marginal, desconhecendo-se a data da sua inauguração. Trata-se duma obra do Escultor Francisco Franco e do Arquitecto Moreira Rato, em cantaria, forma de pirâmide, encimado com o símbolo da Liga dos Combatentes da Primeira Grande Guerra.

Partiu de Lisboa a 2 de Fevereiro de 1918, com destino ao Funchal, numa missão de escolta do vapor "África" que seguia com presos a bordo.


Ficou fundeado no porto do Funchal com missão de patrulha e vigilância entre as Pontas do Garajão e do Pargo, regressando ao Funchal diariamente. A 11 de Fevereiro, junto à Ponta de São Lourenço encontrado uma chalupa com duas baleeiras que traziam 37 náufragos de um navio mercante inglês que tinha sido afundado a 8 de Fevereiro por um submarino alemão, ali perto (Mendes, 2002: 270).


É interessante saber que houve uma solicitação do Governador Civil do Funchal ao comandante do "NRP Celestino Soares", 1º Tenente Monteiro de Barros, para que não atacasse os submarinos, a fim de que estes não viessem a fazer represálias sobre a cidade, situação que não pode receber acolhimento por parte da marinha. O medo da população de voltar a ser bombardeada levou a que inclusivamente existissem conflitos com a guarnição do "NRP Celestino Soares", quando esta se deslocava a terra em licença (Martins, 1934: 284).


Entre 12 e 14 de Fevereiro ficou fundeada no Porto Moniz, tendo então regressado ao Funchal para levar os náufragos recolhidos de uma barca italiana afundada por um submarino alemão.


Já fundeada no Funchal , a 23 de Fevereiro efectuou um exercício de tiro que alarmou o Funchal e levou a que os três patrullhas, "NRP Dory", "NRP Dekade I" e "NRP Mariano de Carvalho", saíssem ao seu encontro para o auxiliarem, pensando que se tratava de um ataque de submarinos.

A Missão do Caça-minas "NRP Celestino Soares"

Unidades Navais fundeadas no Funchal - 1916 a 1918

Estiveram fundeados no Funchal os seguintes navios:


Cruzador auxiliar:

"NRP Gil Eanes": (15 de Dezembro de 1916 a 4 de Janeiro de 1917)

"NRP Pedro Nunes": (29 de Dezembro de 1916 a 2 de Janeiro de 1917)


Aviso:

"NRP 5 de Outubro": (10 de Julho de 1917 a 31 de Julho de 1917)


Contratorpedeiro:

"NRP Tejo": (18 de Novembro de 1917 e 23 de Novembro de 1917); (16 de Julho 1918 a 20 de Julho de 1918)

"NRP Douro": (2 de Outubro de 1917 a 8 de Outubro de 1917)


Canhoneiras:

"NRP Beira": (12 de Julho de 1917 a 17 de Julho de 1917)

"NRP Ibo": (17 de Junho de 1918 a 23 de Junho de 1918)

"NRP Mandovi": (6 de Outubro de 1918 a 17 de Outubro de 1918)


Caça-minas:

"NRP Celestino Soares": (4 de Fevereiro de 1918 a 26 de Fevereiro de 1918)


Escolta:

"NRP República II": (20 de Dezembro de 1917 a 26 de Dezembro de 1917)


Navios Aliados entre 1914 e 1918


"HMS Argonaut", Cruzador de 1ª Classe: (Fundeado entre Agosto de 1914 e Outubro de 1914), (Em missão entre a Madeira e os Açores entre Novembro de 1914 e Setembro de 1915)


"HMS Europa", Cruzador de 1ª Classe: (Em missão entre a Madeira e as Canárias entre Agosto de 1914 e Janeiro de 1916)


"HMS Amphitrite", Cruzador 1ªClasse: (Em missão entre a Madeira e Cabo Verde entre Agosto de 1914 e Junho de 1915)


Bibliografia



Ilustração Portuguesa, n.º 564, 11 de Dezembro de 1916


Martins, Ferreira (1934), "Portugal na Grande Guerra", Vol. II, Lisboa, 1º ed., Empresa Editorial Ática


Mendes, José Agostinho de Sousa (2002), "Setenta e Cinco Anos no Mar, (1910-1985)", 12º Volume, s.e., Lisboa, Edições da Comissão Cultural da Marinha


S.A., (1958), “Liga dos Combatentes da Grande Guerra, Catálogo do Museu", 4ª ed., Lisboa, Edições da L.C.G.G.


FPC EHS/CX1/SPC16.1, Espólio de Humberto Serrão, Fundação Portuguesa das Comunicações, Lisboa.


Colóquio O Porto da Horta na História do Atlântico, Horta, 2010; Horta. Museu, org. conf.; Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, org. conf., Horta : Museu : A.A.A.L., D.L. 2011


IslanhaIslanha (01-06/2011), Funchal, Secretaria Regional de Educação e Cultura da Direcção Regional dos Assuntos Culturais.

Valentiner, Max(1931), "La Terreur des Mers: Mes Aventures en Sous-Marin 1914-1918", Trad. Francesa P. Teillac(Capitão-de-fragata), 1ª ed., Paris, Payot.