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Houve alguma inovação na definição das unidades navais, em parte também porque houve uma evolução tecnológica ao nível os submersíveis que em 1911 já eram encarados como uma arma de guerra defensiva eficaz. Por um lado mantém-se a ideia de uma esquadra atlântica ofensiva com dezoito unidades, couraçados, cruzadores e contratorpedeiros, e por outro a defesa de portos com a utilização de submarinos, torpedeiros e navios mineiros.

 

Nas zonas pesqueiras aparece a ideia de introduzir unidades de fiscalização e para a Marinha colonial a utilização de navios auxiliares multifunções.

 

Neste Plano Estratégico o Atlântico continua a ser a grande preocupação do país, em muito por causa do "perigo espanhol", como também da necessidade de integração e participação do esforço de naval da aliança. Também reflecte a anterior doutrina do Plano de Álvaro Nunes Ribeiro 1908, agora reforçado pelo facto de Espanha monárquica não ver com bons olhos a implantação da República em Portugal e ao mesmo tempo que Espanha desenvolvia vários esforços diplomáticos para conseguir apoio para uma intervenção em Portugal com vista à formação de uma união ibérica.

 

Em Janeiro de 1911 a esquadra atlântica era formada por cinco velhos cruzadores do Plano Jacinto Cândido 1896, sem qualquer uniformidade de equipamento de máquinas e armamento. 

 

A Marinha tinha um problema de falta de meios e as unidades existentes estavam obsoletas tecnologicamente. O seu "inimigo provável" estava a rearmar-se e Portugal com a sua ampla facha litoral estava obrigada a repensar a sua defesa. Era necessário elevar o poder militar terrestre e marítimo, ao limite de garantir a independência nacional, tendo em conta que era objectivo manter as colónias e os seus acessos, o que implicava a necessidade de manter um poder naval que garantisse esse mesmo objectivo. 

 

Outra questão levantada no Plano de 1911 era a do estaleiro de construção naval, se deveria passar para privados, mantendo apenas a manutenção e armamento no Estado e a necessidade de definir a localização das principais bases e estações navais, sendo que ficou definido que o teatro principal de actuação da Marinha seria: Lisboa, Açores e Cabo Verde, com uma linha estratégica no Atlântico Norte entre Lisboa e açores, para melhor defender as rotas para as colónias.

 

O plano, tal como os anteriores, foi alvo de muita discussão política tendo apenas sido aprovado em 1912 um programa naval mínimo do Plano de 1911, estando apenas operacional no início da Grande Guerra um submersível, três canhoneiras e três contratorpedeiros.


 

O Eixo Lisboa-Açores

 

O Plano estratégico de Pereira da Silva considerava essencial para Portugal o eixo Lisboa-Açores, com uma base naval em Lisboa e um ponto de apoio na Horta (estação naval), porque a Horta tinha o único porto natural dos açores com capacidade teórica para abrigar os navios maiores, nacionais ou ingleses. (3)

 

Estrategicamente a esquadra nacional deveria actuar a partir de um qualquer dos pólos desse eixo, dependendo a sua acção das circunstâncias. No caso de uma esquadra inimiga com força superior tentasse bloquear Lisboa, poderia vir a ser necessário retirar para a Horta e a partir daí atacar o inimigo, sem que a esquadra ficasse bloqueada. Noutros casos poderia ser conveniente dividir a esquadra e actuar a partir dos dois pólos. Considerava que deveria ser sempre neste eixo que a esquadra deveria actuar, tanto para defender o continente como para bloquear os portos espanhóis, ou para impedir a passagem de uma esquadra inimiga para Sul. Também era necessário estar preparado para defender os Açores, caso uma esquadra inimiga conseguisse atravessar a esquadra britânica e tentasse ocupar os Açores.

 

É face à determinação deste eixo que no Plano de 1911 se verifica uma alteração na tonelagem dos contratorpedeiros, que ao terem a missão de combater no eixo Lisboa-Açores tinham de estar aptos para navegar em mares fortes e com autonomia mínima de 900 milhas.

 

 

 

 

Links


     •     Fernando Augusto Pereira da Silva

     •     Álvaro Nunes Ribeiro

     •     Jacinto Cândido da Silva

 

Notas

 

     1     Carlos Manuel Baptista Valentim (2003), "O Plano Naval do Comandante Álvaro Nunes Ribeiro" in "XIII Colóquio, Portugal Militar: Da Regeneração à Paz de Versalhes, Actas", Novembro 2003, pp.159-198

     2     Almirante Alfred Thayer Maham, foi um teórico e estratego do Poder Naval. Nascido em 1840 foi professor de história em 1885 no Naval War College, onde começou a divulgar as suas ideias sobre estratégia naval. Em 1906 foi promovido a Almirante e veio a falecer a 1 de Dezembro de 1914. A sua obra de referência foi "The Influence os Sea Power Upon History 1660-1783", editada em Boston, em 1890.

   3     Telo(1999), pp.232-6.

     4     Telo(1999), pp.176-81.

 

 

Bibliografia

 

     •     VVAA(2003), XIII Colóquio, Portugal Militar: Da Regeneração à Paz de Versalhes, Actas" , Lisboa, Comissão Portuguesa de História Militar, Palácio de Independência.

     •     Telo, António José (1999) coord., "História da Marinha Portuguesa: Homens Doutrinas e Organização 1824-1974, Tomo I", Lisboa, Academia de Marinha, (ISBN:972-781-007-1)



O Plano Naval de Jacinto Cândido da Silva - 1896

 

No final do século as corvetas mistas encontram-se obsoletas e é evidente a necessidade de as substituir por cruzadores. As canhoneiras em serviço não satisfazem, às quais Gago Coutinho vem propor um novo modelo que virá a ser adaptado.

 

A contribuição da Marinha para a defesa naval de Lisboa era também desadequado porque dependia do NRP Vasco da Gama que era à data já um navio obsoleto e de apenas mais quatro navios torpedeiros.

 

No entanto na Marinha portuguesa já se ponderava sobre a utilização de submersíveis como arma de guerra e de defesa da barra do Tejo, como se evidencia pela defesa efectuada por Hugo de Lacerda que afirmava que «que a nação que possua e saiba aproveitar a navegação submarina na arte da guerra, pode-se afirmar que está livre de bloqueios, pois hoje eles são considerados como difíceis de manter por muito tempo, quando dirigidos contra uma nação que possua uma regular esquadrilha de torpedeiros».

 

Em 1896 havia a consciência que a marinha portuguesa não tinha uma força naval válida para operar nos mares europeus, face ao qual o submersíveis eram a única forma barata de defender as costas e os portos nacionais.

 

Assim em 21 de Maio de 1896 foi aprovado um programa de reequipamento de emergência da Marinha, no sentido de colmatar a inexistência de qualquer navio que à data pudesse ter uma acção real nos mares da Europa. A Lei aprovou a construção de quatro cruzadores e um rebocador (Bérrio). A estes quatro cruzadores há que acrescentar o cruzador Adamastor que já se encontrava em construção nos estaleiros de Fratelli Orlando, em Livorno, Itália, em consequência da crise diplomática criada com o ultimato da Grã-Bretanha em 1890.

 

Esses quatro cruzadores foram encomendados em diversos países: um em Inglaterra (D. Carlos I, futuro NRP Almirante Reis), dois em França (S.Gabriel e S.Rafael) e um em Portugal (Rainha Dona Amélia, futuro NRP República).

 

O ponto fraco deste rearmamento de 1896 compreende a questão da estratégia onde se pretendia inserir esses navios. Os quatro cruzadores estavam mal preparados para operarem nos mares europeus e também mal adaptados para servir em águas tropicais. O único verdadeiro cruzador era o D. Carlos I, de 4.253t e 110m, com uma velocidade máxima de 22 nós. Contudo não era blindado o que o desabilitava para ser utilizado na defesa da barra do Tejo ou para aguentar combate contra outro cruzador equivalente, mas protegido com blindagem tal como acontecia em todas as outras marinhas europeias.

 

O Adamastor e os dois Arcanjos (S. Gabriel e S. Rafael) eram cruzadores ligeiros na ordem das 1.700t, que nas outras marinhas europeias seriam classificados como avisos. Estes navios tinha grande dificuldade em operara em conjunto com o D. Carlos I.

 

O Vasco da Gama em 1901 sofreu uma grande remodelação em Itália, o que incluiu o seu alongamento, aumento da sua tonelagem por incorporação de blindagem e a instalação de novas peças de artilharia e metralhadoras. A sua principal missão passou a ser a defesa de costa e assegurar um complemento de defesa do Campo Entrincheirado de Lisboa por mar.

 

O cruzador Rainha Dona Amélia, construído no Arsenal, era um navio em aço, com casco forrado a madeira e cobre, com um substancial rio de acção e acomodações generosas, prevendo mesmo a hipótese de transportar uma força de desembarque, o que o tornou o único cruzador concebido para o serviço colonial.

 

Quando se dá a implantação da República a Marinha apresentava um efectivo de seis cruzadores de aço, com armamento moderno, luz eléctrica, torpedos e comunicações TSF. No entanto a aparência de uma força de combate oceânico, não era real, porém cumpriam as funções de representação nacional o que é importante em tempo de paz.

 

Em 1896 a principal função da Marinha era o apoio às campanhas de pacificação em África e no Oriente, onde ela é o elemento essencial do apoio logístico às colunas do exército que se deslocam em terra. A Marinha sacrificou todos os seus meios para cumprir essa missão, embora tenha sempre lamentado a falta de uma força efectiva de combate adaptada aos mares europeus e a falta de meios para reforçar a defesa de Lisboa (4).

 

 

 

O Plano Naval de Álvaro Nunes Ribeiro - 1908

 

Com a tomada de posse do Ministro João Franco em 19 de Maio de 1906, teve início na Liga Naval Portuguesa um trabalho de diagnóstico da situação da Armada com o intuito de apresentar um plano de reformas a aplicar à estrutura naval da marinha de guerra portuguesa. Esse grupo de trabalho foi composto por um conjunto de jovens tenentes, entre os quais se encontrava Álvaro Nunes Ribeiro.

 

O relatório final, divulgado a 2 de Junho de 1908, numa conferência na Liga Naval Portuguesa, apresentava como conclusão a necessidade de existir uma íntima relação entre a marinha militar e a marinha mercante, como um factor de defesa e desenvolvimento do comércio. Havia a convicção de que era através do mar que o país poderia prosperar e trazer bem-estar à população.

 

Persistia também a ideia que para a defesa adequada do Estado português seria necessário uma marinha de guerra poderosa, verificando-se a influência do pensamento do almirante americano Alfred Thayer Mahan, que fosse capaz de destruir esquadras inimigas no alto mar, impedindo que alcançassem ou bloqueassem as costas marítimas portuguesas. A teoria de Mahan defendia o aniquilamento do poder naval do inimigo e para isso a necessidade da existência de uma marinha poderosa de projecção oceânica, capaz de defender pontos estratégicos e manter livre e aberta a navegação marítima comercial. (2)


Plano Álvaro Nunes Ribeiro 1908

Nota (*) as 12 canhoneiras eram para serviço de apoio e fiscalização nas colónias. (Fonte A Marinha de Guerra e o Orçamento, Lisboa, 1908) (1)

Na época estava a cargo do Exército a defesa do Império Africano, cabendo apenas à Marinha apoiar logisticamente as forças terrestres. As lutas de pacificação desenrolavam-se no interior, normalmente longe do litoral e dos rios. O Atlântico era a maior preocupação estratégica para o país, devido ao reforço naval espanhol com os planos de Miguel Villanueva de 1905 e de José Ferrándiz y Niño de 1908. Também é de notar que o pensamento da época generalizava a função da esquadra atlântica  a uma função de predador, em batalha, no alto mar.

 

Num seu artigo de Agosto de 1909, Álvaro Nunes Ribeiro identificava o "inimigo provável" como sendo Espanha e que existia a necessidade de clara de seguir de perto o rearmamento naval deste, para não correr o risco de ficar irremediavelmente para trás. Espanha pela sua vizinhança com Portugal, como também pelas suas tendências expansionistas após a perda de Cuba, era um evidente inimigo provável.

 

Porque desde os últimos anos do século XIX se estava perante uma revolução dos meios de propulsão e dos materiais de construção naval, que se estava perante um ambiente favorável à problematização da renovação da esquadra e do futuro da Marinha. As alterações tecnológicas viram da introdução de novos produtos industriais, como aço barato, explosivos mais potentes, electricidade aplicada aos navios, telegrafia sem fios torpedos e motores de explosão.  

 

Estava em discussão que esquadra a manter, onde construir os novos navios, qual a localização de futuras bases navais e qual o plano estratégico da Marinha. A importância deste trabalho não foi interrompida com a implantação da Republica em 5 de Outubro de 1910, pelo contrário foi incrementado o empenho sobre o mesmo. Para dar continuidade a este trabalho a República nomeou em Janeiro de 1911 uma grande comissão, composta por mais de quarenta oficiais.

 

 

 

O Plano Naval de Fernando Pereira da Silva - 1911

 

A Grande Comissão nomeada pela República em Janeiro de 1911 teve como seu responsável estratego e doutrinador 1º Tenente Fernando Pereira da Silva, ficando o então 2º Tenente Álvaro Nunes Ribeiro como secretário. Trataram-se de anos politicamente conturbados e a discussão sobre o papel estratégico da Marinha saiu do foro interno da comissão para a discussão política e partidária, passando os grupos que formavam a nova elite dirigente, cada um a defender um modelo ideal diferente de Marinha. Sem recursos para investir na Defesa Nacional, os diversos planos que iam sendo apresentados não passavam do papel.  Ainda em Setembro de 1911 a Grande Comissão finalizou o trabalho e apresentou o Plano. 

Plano Fernando Pereira da Silva 1911

O Plano Naval